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11
FEV
2019

Sindigás entrevista Adriana Gioda

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Fonte: Sindigás

A professora do Departamento de Química da PUC-Rio, Adriana Gioda, publicou recentemente, na conceituada revista especializada Biomass and Bioenergy, artigo sobre o consumo de lenha nas residências brasileiras e as suas implicações sociais e para o meio ambiente. Em entrevista ao Sindigás, ela fala um pouco sobre o tema abordado em seu artigo.

Recentemente você publicou artigo na revista Biomass & Bioenergy, sobre uso da lenha no Brasil. Quais os principais pontos do artigo e quantas pessoas usam lenha como combustível nas residências brasileiras? 

Utilizei os dados mais recentes (2016) da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para calcular o número de pessoas e domicílios que fazem uso da lenha.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), em 2016 havia 69.223.575 domicílios, dos quais 16,1% usavam lenha + carvão para cozinhar, correspondendo a 11.144.996 domicílios. Levando-se em conta que cada domicílio tem em média três habitantes, chega-se a 33.434.987 indivíduos que consumiram em 2016 cerca de 605 kg de lenha cada um (1,7 kg/pessoa/dia).

Quais os impactos desse uso para o meio ambiente e também para a saúde das famílias?

Muitos estudos sobre o uso de lenha como combustível foram realizados, principalmente na Ásia e na África. No entanto, no Brasil, ainda existem poucas pesquisas sobre a emissão de gases e partículas relacionados ao uso de lenha, fogões e métodos culinários, dificultando a compreensão de seus efeitos sobre a saúde da população e do meio ambiente.

O uso de lenha no país varia em função das diferenças climáticas, socioeconômicas e culturais. Sabemos que os diferentes tipos de fogões e as condições usadas nos processos de queima liberam produtos como monóxido de carbono, metano e partículas variadas, como a fuligem. As partículas, chamadas de material particulado, geradas no processo de combustão se destacam por serem as mais tóxicas para a saúde e terem grande influência no clima.

Além disso, as emissões de combustão doméstica de carvão e lenha são consideradas misturas causadoras de câncer, que contribuem diretamente para o aumento da morbidade e da mortalidade.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a poluição do ar doméstica é responsável por 4,3 milhões de mortes anualmente. Em 2010, na América Latina e Caribe, foi estimada a ocorrência de 70.000 mortes prematuras relacionadas ao uso de combustíveis sólidos na cocção. A maioria dessas mortes são decorrentes de doenças cardíacas, acidente vascular cerebral, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e câncer de pulmão. Além das mortes, um número significativo de doenças respiratórias agudas ocorre, principalmente, em crianças e mulheres devido a maior exposição.

Os produtos e subprodutos da queima de combustíveis residenciais, além de causar danos à saúde, fazem parte das substâncias responsáveis pelo aquecimento global e pelas mudanças climáticas.

No Brasil, a lenha é o segundo combustível mais usado para cocção. Nas regiões com menor renda per capita, a lenha tem sido extraída de forma inadequada. Os estudos apontam que o uso de lenha no país tem acarretado o aumento do desmatamento, principalmente o bioma da Caatinga. A falta de critérios técnicos na exploração da lenha, o desmatamento ilegal, o monitoramento insuficiente, a falta de fiscalização e a corrupção têm acelerado a destruição das florestas, do solo e dos ecossistemas.

Qual o nível de eficiência da lenha em comparação a outros combustíveis, como o GLP? 

Os tipos de fogões e combustíveis usados para cocção influenciam diretamente na qualidade do ar de uma residência e nas taxas de emissão de poluentes. O desempenho de um fogão é caracterizado pela eficiência de combustão, ou seja, a energia armazenada no combustível convertido em calor e a eficiência de transferência de calor para a panela que é influenciada pelo modelo do fogão. Em termos de eficiência energética, os fogões a combustíveis sólidos, como a lenha, apresentam uma eficiência entre 13 e 17%, já o alimentado por GLP, 57%. Atualmente, além da alta eficiência térmica, um fogão adequado deve produzir menos gases poluentes e partículas durante sua utilização.

Todos os combustíveis utilizados para cocção, disponíveis até o momento, emitem, por menor que seja, poluentes para o ar. De um modo geral, as emissões de combustíveis considerados modernos (querosene e GLP) são menores frente aos demais combustíveis (lenha e carvão) com relação a partículas e alguns gases (CO, CH4, carbono orgânico).

Vale a pena trocar a lenha pelo GLP?

A lenha, para fins de cocção, é considerada uma fonte de energia renovável. No entanto, atualmente, mais de 90% da lenha utilizada nas atividades domésticas mundiais são provenientes de fontes não renováveis, portanto, o uso desse combustível nas atividades domésticas contribui significativamente para o impacto no aquecimento global.

O fogão a GLP emite menos partículas e menos gases de efeito estufa (GEE) do que a lenha. Embora haja um incentivo para substituir fogões a lenha por fogões a GLP, devido à queima mais limpa, é importante que a produção de fogões tenha um protocolo bem definido, que deve ser seguido por todos os fabricantes, pois produções inadequadas podem acarretar em emissões indesejadas. Além do modo de produção e uso, a composição do GLP também influencia. Fogões bem projetados podem mitigar de 1,5 a 3,6 toneladas de CO2 reduzindo, assim, as emissões de GEE.

Quais os seus projetos futuros?

Embora haja muitos estudos sobre o uso da lenha em outros países, no Brasil há uma falta de informação que impede avaliar os custos para a saúde e o meio ambiente. Precisamos de dados nacionais, pois as características do clima, alimentação, tipo de lenha e fogão, além das características regionais e culturais, influenciam na cadeia da produção ao uso.

A PUC-Rio e o Instituto Perene assinaram um convênio para desenvolver estudos com lenha. Recentemente, tivemos o projeto Fogões do Mar aprovado pela Petrobras. Este projeto tem como objetivo principal reduzir de forma drástica os problemas associados à queima ineficiente da lenha para cocção domiciliar. O destaque do projeto está na quantificação e certificação independente das reduções de emissões de gases do efeito estufa, bem como dos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). O projeto beneficiará diretamente 5.300 famílias, em 94 comunidades extrativistas, trazendo uma tecnologia adequada para o uso reduzido e eficiente da lenha, substituindo assim os atuais fogões rudimentares habituais e seus respectivos problemas associados. Os benefícios da realização do projeto serão muitos, abrangendo desde a redução do consumo de lenha, a diminuição da degradação florestal, o tempo que as pessoas gastam para coletar lenha, até a redução de sintomas de saúde relacionadas à exposição de longo prazo à fumaça, como a irritação dos olhos e da pele, além do surgimento de tosse.

Futuramente, pretendemos dar continuidade ao estudo que visa substituir os fogões tradicionais e ecoeficientes a lenha pelo fogão a GLP. Além disso, faremos estudos clínicos e toxicológicos com as pessoas expostas. Mas esse projeto mais ambicioso ainda depende de aprovação de verba.

Leia artigo da revista Biomass and Bioenergy

Conheça a publicação “Queima de lenha e carvão em ambientes fechados – Poluição do ar e riscos para a saúde”