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16
JAN
2020

Artigo: O Brasil e as crises do petróleo

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Fonte: O Globo | Home  Rio de Janeiro | RJ

Durante décadas, o Brasil dependeu de petróleo importado. As crises dos anos 70 resultaram na década perdida dos 80. Desde então, esse fantasma sempre esteve presente. Em 2018 um aumento nos preços contribuiu para uma greve que paralisou o país. Em setembro, o ataque com drones a instalações na Arábia Saudita provocou inquietação. A crise EUA-Irã traz as incertezas de volta. Há aumento da instabilidade e do risco de ações terroristas, possibilidade de um conflito mais aberto e longo e implicações para o mercado de petróleo.

No ataque de setembro, os preços subiram, mas logo retrocederam. Ficou a sensação de aumento do risco, que se materializou agora. Mais uma vez houve um impacto inicial, mas limitado, nos preços.

No entanto, a situação agora é distinta. A partir dos anos 70, problemas no Oriente Médio criaram choques no preço e crises econômicas. Se considerava que o petróleo era um bem finito e que haveria um pico de produção, a partir do qual o preço tenderia a subir. No entanto, desde a revolução do shale nos EUA, houve um choque de oferta. O país, que importava mais de 10 milhões de barris por dia, passou a exportar. Outros, como o Brasil, estão aumentando a produção. A oferta de gás natural em países politicamente estáveis como os EUA e a Austrália cresceu.

A diversificação das fontes e a maior segurança no suprimento mudaram a geopolítica do petróleo. A dependência do Oriente Médio e o interesse americano pela região caíram. Entrou-se na era do “fim do petróleo caro”, pois se os preços subirem muito, a produção pode reagir rapidamente, decretando que choques de preço tendem a ter vida curta.

Além das mudanças na oferta, também houve transformações na demanda. A transição energética e o crescimento das fontes renováveis começam a colocar no horizonte visível o pico de demanda por petróleo. Assim, se passou de um cenário de pico de produção para um de pico de demanda.

Ultimamente, conflagrações têm produzido volatilidade, não altas desenfreadas dos preços. Para que haja um choque de efeito mais prolongado, é preciso que o conflito se aprofunde e perdure, com reflexos na produção na região e no fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz. Mas esse não parece ser o cenário mais plausível. Por isso, o mais provável é que essa crise produza mais volatilidade, com impacto limitado no preço.

Mas não foi só no mundo que esse mercado mudou. No Brasil a transformação foi ainda mais profunda. O país agora é autossuficiente e exporta mais de 1,1 milhão de barris por dia. Em dez anos deve se tornar um dos cinco maiores produtores e exportadores. A balança comercial do setor, deficitária por décadas, passou a ser positiva. A renda do petróleo vai se multiplicar. Era de cerca de R$ 50 bilhões em 2018. Pode superar R$ 300 bilhões em 2030.

Altas nos preços dos derivados impactam a atividade econômica e o consumidor. Todavia, aumentos no petróleo produzirão receitas capazes de compensar potenciais reajustes nos preços do diesel, da gasolina e do gás de cozinha, se a decisão fosse usar esses recursos para mitigar impactos ao consumidor. Ao longo da década, com a produção crescendo mais que o consumo, essa diferença vai se acentuar. Resta saber se, em tempos de transição energética e de busca de competitividade, estimular o consumo de combustíveis fósseis, dando sinais de preço equivocados ao mercado, seria o melhor destino para esses ingressos extraordinários. A relação da economia brasileira com o petróleo mudou, para melhor. É preciso que as estratégias nacionais reflitam essa nova realidade.

Décio Oddone é diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis