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23
FEV
2021

Inflação pode subir ainda mais com intervenção de Bolsonaro na Petrobras

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Fonte: Época

A decisão de Jair Bolsonaro (sem partido) de trocar o comando da Petrobras para conter a alta dos combustíveis pode ter o efeito oposto daquele desejado pelo presidente. Ao invés de resultar em queda da inflação, a medida pode levar a uma aceleração dos preços, devido à desvalorização do real frente ao dólar, como resultado do aumento da incerteza.

A taxa de câmbio influencia o preço de todas as commodities, incluindo os alimentos. Pesa ainda sobre os custos da indústria, que acabam sendo repassados ao consumidor ou prejudicando a saúde financeira das empresas.

A piora na percepção de risco no país também tende a travar os investimentos das companhias, levando a uma redução das expectativas de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) neste ano. E, com a piora do quadro inflacionário, o Banco Central pode ser levado a antecipar a alta da taxa básica de juros (Selic), o que afetaria também as perspectivas para o desempenho da atividade econômica em 2022.

Segundo o boletim Focus do Banco Central, o mercado também elevou sua projeção para a Selic ao fim de 2021, de 3,75% para 4%. Atualmente, a taxa básica de juros está em 2% ao ano, menor patamar da história.

Os economistas pioraram ainda a estimativa para o crescimento do PIB neste ano, de 3,43% para 3,29%. Em 2020, eles avaliam que a economia deve ter encolhido 4,22% em decorrência da pandemia. O resultado oficial para o PIB de 2020 deve ser divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) no dia 3 de março.

Na sexta-feira (19/2), Bolsonaro comunicou através das redes sociais a decisão de substituir o atual presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, pelo general Joaquim Silva e Luna, hoje presidente da usina de Itaipu.

A mudança, que ainda precisa ser aprovada pelo conselho de administração da estatal, gera uma enorme incerteza quanto ao futuro da política de preços da empresa.

Atualmente, a Petrobras adota uma política de paridade de preços dos combustíveis com o mercado internacional. Com isso, gasolina, diesel e gás de cozinha variam acompanhando as flutuações do preço do petróleo e a taxa de câmbio.

“Há um enorme ponto de interrogação sobre o futuro da política de preços dos combustíveis. Se Bolsonaro partir para uma linha populista, o que tem uma probabilidade muito grande de acontecer, pode haver aumento da incerteza, fazendo com que o real se desvalorize mais fortemente em relação ao dólar, e aí o contágio na inflação é bem mais generalizado”, afirma André Braz, coordenador de índices de preço no Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).

“Se o pobre vai economizar no gás de botijão e na passagem de ônibus urbano, que é influenciada pelo preço do diesel, por outro lado, ele é penalizado pelo encarecimento de outros itens componentes da cesta básica”, explica o economista.

O especialista da FGV explica que a alta do dólar afeta, por exemplo, o preço das carnes, que já acumula alta de 23% em 12 meses até janeiro.

“A carne bovina, por exemplo, é muito demandada pela China. Quanto mais desvalorizada nossa moeda está, mais carne a gente vende para a Ásia. Com isso, o produto sai cada vez mais do nosso país, o que é ruim para a inflação, pois desabastece o mercado brasileiro”, diz Braz. Com menos carne disponível, o preço dela tende a subir.

Ele explica que esse mesmo efeito deve levar a uma alta de preços da soja e do milho, que são usados como ração na engorda de animais como suínos e aves.

“O custo de criação desses animais aumenta. Então, além do avanço da exportação, pela desvalorização do real, também podemos ter um aumento de custos nesses segmentos, o que pode aumentar o preço dessas carnes e também do ovo”, diz o analista.

Outro exemplo de produto cujo preço pode subir é o minério de ferro, usado na construção civil e também na fabricação de bens duráveis como automóveis, fogões, geladeiras e máquinas de lavar, feitos com chapas de aço. “O espalhamento da inflação, entre itens da cesta básica e bens duráveis é enorme”, conclui o economista.

Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, destaca que essa perspectiva de desvalorização cambial e consequente aumento da inflação é agravada pela percepção de que a intervenção na Petrobras não deverá ser um caso isolado.

“A sinalização do presidente de que ele pretende interferir em outros preços, como o da energia elétrica, remete a momentos do passado quando a presidente Dilma [Rousseff, do PT] tentou fazer o mesmo”, diz Vale.

Ele lembra que, no governo da ex-presidente, o controle de preços dos combustíveis pela Petrobras foi usado como uma forma de controlar artificialmente a inflação, gerando prejuízos bilionários para a empresa. Já no setor elétrico, Dilma tentou baratear o custo da energia por meio de uma medida provisória (MP 579/2012) que causou enormes desequilíbrios no setor.

“Dessa vez, o grande risco é essa interferência de preços, tanto na Petrobras, como na energia, vir de uma forma um pouco diferente do que foi no caso da Dilma. Me parece que a ideia do governo agora é utilizar recursos fiscais para tentar evitar que os preços subam”, explica Vale.

“Ou seja, você piora o perfil das contas públicas, num momento que a situação fiscal já está comprometida depois dos gastos em resposta à pandemia no ano passado. A piora fiscal traz esse possível impacto de pressão cambial e, consequentemente, de inflação.”

Já no setor elétrico, Bolsonaro estaria planejando usar R$ 20 bilhões em recursos de um fundo setorial e devolver outros R$ 50 bilhões em valores pagos a mais pelos consumidores na conta de luz, como forma de baratear preços à população. As informações são da Folha de S. Paulo, em reportagem publicada no domingo (21/2).

“No terceiro ano de mandato presidencial, o presidente está olhando muito sua reeleição no ano que vem. Ele dá essas ‘bondades’ para a população, que mais à frente acabam se voltando contra as próprias pessoas, através de mais inflação”, diz Vale.

Expectativas para o PIB também deverão ser afetadas

O economista-chefe da MB Associados avalia que esse cenário também tende a corroer as expectativas de crescimento para este e para o próximo ano.

“Todo o atraso na recuperação da atividade provocado pelo agravamento da pandemia, mais esse cenário de intervenção que começa a aparecer, também afetam a expectativa de crescimento, especialmente pelo lado do investimento”, afirma o analista.

“Incerteza significa volatilidade muito intensa, o que é um cenário complicado para o investidor lidar, então a tendência é haver saída de recursos estrangeiros do país para mercados mais estáveis. Por conta disso, acontece a depreciação da taxa de câmbio.”

O economista explica que o efeito de tudo isso para a inflação só não deve ser pior porque as empresas devem ter dificuldade de repassar a alta de custos aos preços, devido à elevada taxa de desemprego e aos muitos consumidores sem uma fonte de renda em meio à pandemia.

Sem repassar preços, as empresas devem perder margens de operação e de lucro. Com isso, a propensão das companhias para investir ou contratar trabalhadores fica prejudicada, o que também afeta negativamente as perspectivas de crescimento da economia.

“Podemos ter mais recuperações judiciais e falências por conta desse cenário de pressão de custos”, diz Vale. “Isso também significa que o mercado de trabalho deve ter uma recuperação muito lenta, com a taxa de desemprego chegando acima de 15% nos próximos meses e sem perspectiva de voltar a cair com mais intensidade ao longo deste ano.”

Diante da perspectiva de alta adicional do dólar e aumento da inflação, o Banco Central deve ser levado a subir a taxa básica de juros ainda neste primeiro semestre.

“Acredito que [a Selic] não subirá ainda em março, mas esperamos alta em maio, quando vai haver clareza em relação ao não andamento das reformas”, avalia Vale. “Mas, se o câmbio continuar pressionado como está agora, talvez o BC seja chamado a subir taxa de juros antes da hora. Pode acontecer.”

“Esse cenário de aumento de juros antes do previsto e talvez uma taxa mais alta do que se imaginava tem o efeito de reduzir a expectativa de crescimento para o ano que vem, porque uma alta de juros que comece agora e termine no segundo semestre teria seu impacto completo em 2022.”

Com o chamado “centrão” à frente do Congresso, num terceiro ano de mandato presidencial, Vale avalia que a perspectiva aprovação de reformas controversas como a administrativa e a tributária é muito desfavorável.

“O cenário que temos no Congresso não é um cenário de ajuste fiscal. E o ministro Paulo Guedes está cada vez mais enfraquecido. Ele já não tinha um poder de determinar a agenda e agora fica ainda mais claro que o problema não era o [ex-presidente da Câmara] Rodrigo Maia, mas a dificuldade de articulação por parte do Ministério da Economia.”

“Ele está no governo, mas é como se não estivesse”, opina o economista. “A questão que fica é: o ministro Guedes vai aguentar até quando essas ingerências de um governo que já não era liberal e fica cada vez mais parecido com momentos muito ruins do passado da economia brasileira, especialmente do governo Dilma? Até quando ele vai levar?”