{"id":21098,"date":"2020-10-05T11:55:19","date_gmt":"2020-10-05T14:55:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sindigas.org.br\/novosite\/?p=20025"},"modified":"2020-11-23T18:00:32","modified_gmt":"2020-11-23T21:00:32","slug":"os-precos-do-gas-poderiam-realmente-cair-por-bruno-armbrust-e-renata-cavalcanti","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sindigas.org.br\/?p=21098","title":{"rendered":"Os pre\u00e7os do g\u00e1s poderiam realmente cair?, por Bruno Armbrust e Renata Cavalcanti"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fonte: EPBR<\/strong><\/p>\n<p>Os pre\u00e7os do g\u00e1s poder\u00e3o realmente cair 30%? Essa \u00e9 a pergunta que muitos no mercado de g\u00e1s no pa\u00eds t\u00eam feito nos \u00faltimos tempos.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas semanas, o ministro\u00a0<a class=\"st_tag internal_tag\" title=\"Posts tagged with Paulo Guedes\" href=\"https:\/\/epbr.com.br\/assunto\/paulo-guedes\/\" rel=\"tag\">Paulo Guedes<\/a>\u00a0voltou a externar sua convic\u00e7\u00e3o na queda dos pre\u00e7os do g\u00e1s natural em 30%, a partir da aprova\u00e7\u00e3o do marco legal do setor.<\/p>\n<p>Comparando o pre\u00e7o atual da\u00a0<a class=\"st_tag internal_tag\" title=\"Posts tagged with Petrobras\" href=\"https:\/\/epbr.com.br\/assunto\/petrobras\/\" rel=\"tag\">Petrobras<\/a>\u00a0com os praticados na Uni\u00e3o Europeia e nos EUA, onde existem efetiva concorr\u00eancia e livre mercado, poderia se supor que esta redu\u00e7\u00e3o seria fact\u00edvel como prev\u00ea o ministro.<\/p>\n<p>Nesse momento, na Uni\u00e3o Europeia, Comercializadores Minoristas est\u00e3o fechando contratos de compra de g\u00e1s para o ano t\u00e9rmico 2020\u20132021 com pre\u00e7os abaixo de 3,0 US$\/MMBTU, fixos pelo per\u00edodo.<\/p>\n<p>No Brasil, a Petrobras est\u00e1 vendendo o g\u00e1s, nas mesmas condi\u00e7\u00f5es, a 5,0 US$\/MMBTU.\u00a0 Portanto, se a Petrobras viesse a alinhar sua pol\u00edtica de pre\u00e7os \u00e0 praticada no hemisf\u00e9rio norte, poder\u00edamos ter uma redu\u00e7\u00e3o at\u00e9 maior que 30%.<\/p>\n<h4>E por que isto n\u00e3o acontece?<\/h4>\n<p>A cadeia do g\u00e1s natural \u00e9 constitu\u00edda pela commodity g\u00e1s (mol\u00e9cula) que deveria ser comercializada sob regime de livre concorr\u00eancia e por atividades de rede (distribui\u00e7\u00e3o e transporte) que s\u00e3o regidas por tarifas reguladas pela ANP e pelas ag\u00eancias estaduais, que seguem regras pr\u00f3prias.<\/p>\n<p>Durante todos estes anos, tivemos a Petrobras como \u00fanica fornecedora do g\u00e1s, ou seja, um monop\u00f3lio de fato e n\u00e3o regulado. Isto permitiu o estabelecimento de seus pre\u00e7os a partir dos custos assumidos e n\u00e3o do valor de mercado.<\/p>\n<p>Como o g\u00e1s dispon\u00edvel no Brasil \u00e9 do tipo associado, produzido principalmente no mar e distante da costa, seus custos de produ\u00e7\u00e3o e escoamento s\u00e3o bem superiores aos dos demais pa\u00edses produtores.<\/p>\n<p>Na forma\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o, a commodity representa 78% do valor final do produto entregue nos city gates e o transporte apenas 22%; logo, \u00e9 na parcela da commodity onde est\u00e1 o grande potencial para a t\u00e3o almejada redu\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o final.<\/p>\n<p>O volume de g\u00e1s produzido no Pa\u00eds somado ao importado, em 2019 foi de cerca de 83 milh\u00f5es de m\u00b3 m\u00e9dio por dia.<\/p>\n<p>Deste total, 56 milh\u00f5es de m\u00b3 foram de produ\u00e7\u00e3o nacional e 27 milh\u00f5es m\u00b3 de g\u00e1s importado sendo, 19 milh\u00f5es m\u00b3 da Bol\u00edvia e 8 milh\u00f5es m\u00b3 de\u00a0<a class=\"st_tag internal_tag\" title=\"Posts tagged with GNL\" href=\"https:\/\/epbr.com.br\/assunto\/gnl\/\" rel=\"tag\">GNL<\/a>. O mercado convencional de g\u00e1s absorveu em 2019 uma m\u00e9dia de 44 milh\u00f5es de m\u00b3\/dia.<\/p>\n<p>Segundo o boletim do MME, a Petrobras det\u00e9m 75% de toda a produ\u00e7\u00e3o nacional ficando os outros 25% concentrados em cerca de outros 10 produtores, com destaque para a Shell com cerca de 12%.<\/p>\n<p>Do total da produ\u00e7\u00e3o, 40% \u00e9 ofertado ao mercado e o restante dividido entre consumo nas unidades de produ\u00e7\u00e3o com reinje\u00e7\u00e3o, queima e perdas, e absor\u00e7\u00e3o em UPGNs (GPL etc.).<\/p>\n<p>Estima-se que o volume de g\u00e1s de produ\u00e7\u00e3o de terceiros, que em parte a Petrobras comercializa, e que poderia passar a ser ofertada diretamente por seus produtores com pre\u00e7os reduzidos, seja da ordem de 11 milh\u00f5es de m\u00b3\/dia o que representa cerca de 25% do consumo de todo o mercado convencional com base no ano de 2019, logo n\u00e3o seria suficiente para garantir as expectativas de redu\u00e7\u00e3o esperada pelo lado da oferta.<\/p>\n<p>A Petrobras que continuar\u00e1 tendo, por um bom per\u00edodo, participa\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria no mercado, introduziu recentemente uma nova pol\u00edtica comercial para o g\u00e1s natural, denominada\u00a0<a class=\"st_tag internal_tag\" title=\"Posts tagged with Novo Mercado de G\u00e1s\" href=\"https:\/\/epbr.com.br\/assunto\/novo-mercado-de-gas\/\" rel=\"tag\">Novo Mercado de G\u00e1s<\/a>.<\/p>\n<p>Os contratos t\u00eam prazos de 2 a 3 anos, e o pre\u00e7o da mol\u00e9cula passou a ter como refer\u00eancia 12% do valor do Brent. Devido \u00e0 queda dos pre\u00e7os do \u00f3leo para o patamar de US$ 40 o barril, o pre\u00e7o do g\u00e1s est\u00e1 hoje em 5,0 US$\/MMBTU, mas sujeito \u00e0 mesma volatilidade do Brent.<\/p>\n<p>Ao pre\u00e7o do g\u00e1s, deve-se somar a tarifa de transporte, regulada pela ANP, hoje aproximadamente de 1,4 US$\/MMBTU, o que d\u00e1 um pre\u00e7o final da ordem de 6,4 US$\/MMBTU.<\/p>\n<p>Se redu\u00e7\u00e3o de 30% esperada for sobre estes 6,4 US$\/MMBTU, o pre\u00e7o cairia para 4,4 US$\/MMBTU que, deduzida a tarifa de transporte, chegar\u00edamos a um pre\u00e7o do g\u00e1s de 3,0 US$\/MMBTU, mais alinhado com os atuais pre\u00e7os internacionais.<\/p>\n<p><strong>Outros fatores a serem considerados para que haja expans\u00e3o da demanda:<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>Os potenciais novos grandes consumidores, para os quais o custo do g\u00e1s poderia ter peso relevante na planilha de forma\u00e7\u00e3o de pre\u00e7o, n\u00e3o t\u00eam os seus produtos atrelados ao Brent, podendo com isto gerar um desbalanceamento comercial no futuro;<\/li>\n<li>Os comercializadores internacionais de g\u00e1s, apesar de ainda utilizarem o pre\u00e7o do \u00f3leo como base de sua precifica\u00e7\u00e3o, j\u00e1 est\u00e3o assinando contratos a pre\u00e7os fixos ou tomando como base outros indexadores de hubs locais.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Portanto, a n\u00e3o ser que a Petrobras venha a alterar sua atual pol\u00edtica de pre\u00e7os, somente uma parcela pequena da produ\u00e7\u00e3o de terceiros estaria dispon\u00edvel para ser ofertada ao mercado com pre\u00e7os reduzidos.<\/p>\n<p>H\u00e1 que se considerar que estes produtores ter\u00e3o ainda que pagar \u00e0 Petrobras pela utiliza\u00e7\u00e3o dos dutos de escoamento e UPGNs. Conseguir\u00e3o eles atingir esta meta?<\/p>\n<p>No curto prazo, com o petr\u00f3leo em baixa, n\u00e3o parece muito prov\u00e1vel que a Petrobras e mesmo os demais produtores de g\u00e1s no Pa\u00eds venham a praticar pre\u00e7os muito inferiores aos atuais, pois nem o g\u00e1s importado da Bol\u00edvia, nem o GNL, parecem ser neste momento uma amea\u00e7a ao mercado j\u00e1 estabelecido.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, a Petrobras como\u00a0<em>price maker<\/em>, para alterar sua atual pol\u00edtica para o g\u00e1s teria que se sentir amea\u00e7ada por uma grande concorr\u00eancia, ou ter que expandir muito sua produ\u00e7\u00e3o de g\u00e1s pela necessidade de produzir o \u00f3leo, aumentando consideravelmente a oferta.<\/p>\n<p>E a\u00ed est\u00e1 o verdadeiro desafio \u2013 invers\u00e3o da l\u00f3gica de custo para oferta e demanda.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 saber se o PL 6407, agora em tramita\u00e7\u00e3o no Senado, somado ao TC, firmado entre a Petrobras e o CADE, ser\u00e3o suficientes para introduzir os elementos necess\u00e1rios para possibilitar a esperada redu\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os atuais.<\/p>\n<p>A defesa da aprova\u00e7\u00e3o do PL, sem altera\u00e7\u00f5es em seu texto, teve como principal argumento que o PL continha os elementos m\u00ednimos necess\u00e1rios para estabelecer um regime de concorr\u00eancia na oferta de g\u00e1s ao mercado, o que levaria a uma r\u00e1pida, efetiva e significativa redu\u00e7\u00e3o dos atuais pre\u00e7os.<\/p>\n<blockquote class=\"pullquote align-center\"><p>Cabe remarcar que o texto aprovado na C\u00e2mara de Deputados ainda est\u00e1 distante dos marcos legais mais modernos existentes em pa\u00edses onde j\u00e1 existe um ambiente de livre concorr\u00eancia e onde todos os consumidores t\u00eam garantido o seu direito de eleger seu comercializador de g\u00e1s.<\/p><\/blockquote>\n<p>A redu\u00e7\u00e3o que muitos esperam, ainda \u00e9 cercada de d\u00favidas e caberia maiores esclarecimentos de como ela se dar\u00e1. Seria importante saber que a\u00e7\u00f5es est\u00e3o previstas p\u00f3s vig\u00eancia da Lei como por exemplo, realiza\u00e7\u00e3o de programa de \u201cg\u00e1s release\u201d, volumes esperados com redu\u00e7\u00e3o, prazos estimados e que consumidores e mercados ser\u00e3o inicialmente beneficiados.<\/p>\n<p>Conseguir que uma efetiva redu\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o do g\u00e1s dever\u00e1 ser um objetivo a ser perseguido pelo Governo por meio de medidas infra legais, sem altera\u00e7\u00f5es do texto do projeto de lei.<\/p>\n<p>Como sugest\u00e3o, para afastar um certo ceticismo de alguns cr\u00edticos \u00e0 timidez do texto do Projeto de Lei, seria interessante que em breve tempo se possa ver algum comercializador afiliado ao IBP, firmando com uma grande ind\u00fastria um contrato no mercado livre com pre\u00e7os menores que os atuais ou outras modalidades como\u00a0<em>profit share<\/em>\u00a0ou valor agregado, como o modelo da Shell com a t\u00e9rmica de Marlim Azul.<\/p>\n<p>Seria um importante sinal ao mercado e uma indica\u00e7\u00e3o que estamos caminhando para um efetivo avan\u00e7o neste setor.<\/p>\n<p><strong><em>Bruno Armbrust<\/em><\/strong><em>\u00a0foi presidente do grupo espanhol Naturgy no per\u00edodo de 2007 a 2019 e \u00e9 atualmente s\u00f3cio da ARM Consultoria, que presta consultoria para comercializadoras e distribuidoras de g\u00e1s.\u00a0<strong>Renata Cavalcanti<\/strong>\u00a0foi Conselheira de Administra\u00e7\u00e3o da Naturgy at\u00e9 abril 2020 e da CEMIG at\u00e9 novembro 2019.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fonte: EPBR Os pre\u00e7os do g\u00e1s poder\u00e3o realmente cair 30%? 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