{"id":21103,"date":"2020-10-08T11:50:08","date_gmt":"2020-10-08T14:50:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sindigas.org.br\/novosite\/?p=20052"},"modified":"2020-11-23T17:57:34","modified_gmt":"2020-11-23T20:57:34","slug":"fizemos-trabalho-de-seis-anos-em-seis-meses-diz-presidente-da-petrobras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sindigas.org.br\/?p=21103","title":{"rendered":"\u201cFizemos trabalho de seis anos em seis meses\u201d, diz presidente da Petrobras"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fonte: Exame<\/strong><\/p>\n<p>A centen\u00e1ria ind\u00fastria do petr\u00f3leo passou por diversos choques ao longo de sua hist\u00f3ria, com consequ\u00eancias avassaladoras para a economia global. Em 2020, o estrago causado pela pandemia de covid-19 no setor trar\u00e1 efeitos permanentes para as petroleiras. No caso da Petrobras, o cen\u00e1rio n\u00e3o ser\u00e1 diferente. Para enfrentar a pandemia, a companhia anunciou um corte tempor\u00e1rio da capacidade instalada, colocou 25.000 funcion\u00e1rios \u2014 dos cerca de 45.000 \u2014 em home office e acaba de revisar para baixo seu programa de investimentos em explora\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o no per\u00edodo de 2021 a 2025, para algo entre 40 bilh\u00f5es e 50 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, ante um valor anunciado anteriormente de 64 bilh\u00f5es para o plano estrat\u00e9gico de 2020 a 2024. Em entrevista \u00e0 \u00adEXAME, Roberto Castello Branco, presidente da Petrobras, afirmou que a pandemia foi um catalisador da transforma\u00e7\u00e3o que as empresas do setor j\u00e1 precisavam fazer. A estatal resolveu intensificar os planos de cortes de custos, focar ativos de classe mundial e investir em novas tecnologias. Ele acredita que a Justi\u00e7a \u201centendeu\u201d os benef\u00edcios da venda de ativos da companhia sem aval do Congresso, um questionamento que chegou ao Supremo Tribunal Federal e cuja decis\u00e3o foi favor\u00e1vel \u00e0 Petrobras, no in\u00edcio deste m\u00eas. Segundo o executivo, a quarentena refor\u00e7ou que a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica vir\u00e1 mais rapidamente do que o esperado e, com isso, a companhia estuda em quais fontes renov\u00e1veis faz sentido investir. Para o chefe da maior empresa do Brasil, a quarentena permitiu que a Petrobras conseguisse fazer \u201cseis anos em seis meses\u201d.<\/p>\n<div class=\"article-content\">\n<p><strong>A Petrobras anunciou uma revis\u00e3o dos investimentos para baixo. Podemos esperar uma queda na produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo nos pr\u00f3ximos anos?<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s o in\u00edcio da crise, prometemos fazer uma esp\u00e9cie de stress test do portf\u00f3lio de projetos. S\u00f3 aqueles que fossem resilientes a um pre\u00e7o de petr\u00f3leo de 35 d\u00f3lares por barril seriam de fato implementados. Resiliente significa que o projeto paga todos os custos, inclusive o de oportunidade do capital, incluindo d\u00edvida e remunera\u00e7\u00e3o do acionista. Com isso, j\u00e1 cancelamos alguns projetos. Mas como vai ser a curva de produ\u00e7\u00e3o e de quanto vai ser o investimento para os pr\u00f3ximos anos n\u00e3o temos condi\u00e7\u00f5es de estimar no momento. Tra\u00e7amos um intervalo de 40 bilh\u00f5es a 50 bilh\u00f5es de d\u00f3lares para os pr\u00f3ximos anos, mas n\u00e3o estamos preocupados com a maximiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, e sim com a maximiza\u00e7\u00e3o de valor para o acionista. Poder\u00edamos aumentar a produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, mas com projetos que n\u00e3o s\u00e3o economicamente vi\u00e1veis. Preferimos o que chamamos de ativos de classe mundial, de baixo custo, baixo risco de explora\u00e7\u00e3o, com grandes reservas e de alto retorno esperado.<\/p>\n<p><strong>Outras grandes petroleiras, como a BP e a Shell, tamb\u00e9m revisaram o planejamento. A ind\u00fastria global atingiu um novo patamar, com pre\u00e7os mais baixos?<\/strong><\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dez anos, a ind\u00fastria de petr\u00f3leo global tem registrado um desempenho p\u00edfio. As companhias n\u00e3o tiveram uma boa performance e n\u00e3o conseguiram se ajustar a pre\u00e7os mais baixos. Agora, a crise da covid-19 agiu como um catalisador, levando as empresas a enxergar melhor a realidade. Do nosso lado, n\u00e3o mudamos a estrat\u00e9gia lan\u00e7ada em 3 de janeiro do ano passado. Resolvemos intensificar a execu\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia de corte de custos, acelerando a transforma\u00e7\u00e3o digital e desenvolvendo mais inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, para que no futuro nossos ativos sejam resilientes a pre\u00e7os ainda mais baixos. Esse per\u00edo\u00addo de seis meses da pandemia tem sido extremamente positivo. O home office tem se mostrado muito produtivo. Embora as pessoas estejam geograficamente distantes, a atual conjuntura aproximou as equipes, temos times multidisciplinares atuando, a diretoria est\u00e1 se reunindo mais vezes por semana, discutindo com mais tempo as ideias. Em resumo, conseguimos fazer seis anos em seis meses.<\/p>\n<p><strong>No leil\u00e3o do excedente da cess\u00e3o onerosa em novembro do ano passado, petroleiras reclamaram do pre\u00e7o alto dos ativos. Diante de um novo horizonte para o setor, o modelo de partilha continua vi\u00e1vel?<\/strong><\/p>\n<p>O modelo de partilha de produ\u00e7\u00e3o no pr\u00e9-sal n\u00e3o \u00e9 atrativo para os investidores. No leil\u00e3o do excedente da cess\u00e3o onerosa, n\u00f3s demos lances em campos que j\u00e1 operamos e conhecemos bem, como o de B\u00fazios. L\u00e1, a fase explorat\u00f3ria praticamente n\u00e3o vai existir. Por\u00e9m os outros concorrentes ainda tinham de nos restituir pelos investimentos j\u00e1 realizados, e eu entendo perfeitamente por que podem ter considerado os campos caros. O regime de partilha n\u00e3o estimula o aumento de produtividade, al\u00e9m de a tributa\u00e7\u00e3o ser extremamente alta.<\/p>\n<p><strong>O senhor \u00e9 a favor da mudan\u00e7a da lei? <\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 fundamental que o Brasil fa\u00e7a isso. Quanto mais simples for a regula\u00e7\u00e3o, melhor. Quando o modelo de partilha foi aprovado, a primeira experi\u00eancia do governo foi com o leil\u00e3o de Libra [em 2013]. Apenas um cons\u00f3rcio, capitaneado pela Petrobras, deu lance. Nunca foi algo disputado e atraente.<\/p>\n<p><strong>Mas hoje a Petrobras ainda usufrui do regime de prefer\u00eancia nos leil\u00f5es do pr\u00e9-sal. Com o eventual fim do modelo de partilha, isso tiraria a competitividade da companhia?<\/strong><\/p>\n<p>A Petrobras est\u00e1 preparada para competir em qualquer regime. A companhia n\u00e3o precisa disso para investir em um campo de petr\u00f3leo. Temos compet\u00eancia, tecnologia, capital humano e experi\u00eancia. A prefer\u00eancia \u00e9 muito ruim para qualquer empresa, que acaba n\u00e3o se esfor\u00e7ando para ser mais produtiva.<\/p>\n<p><strong>A Petrobras arrematou os campos de Itapu e B\u00fazios, pagando um b\u00f4nus de assinatura <\/strong><strong>superior a 60 bilh\u00f5es de reais. Como est\u00e3o as encomendas e o cronograma para desenvolv\u00ea-los? <\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 operamos nos dois campos, inclusive eles bateram recorde de produ\u00e7\u00e3o de 800.000 barris de \u00f3leo equivalente por dia. Estamos encomendando algumas plataformas e nosso objetivo \u00e9 come\u00e7ar a extrair \u00f3leo no segundo semestre de 2024.<\/p>\n<p><strong>A empresa reduziu temporariamente a capacidade de produ\u00e7\u00e3o em alguns campos. Houve renegocia\u00e7\u00e3o com fornecedores?<\/strong><\/p>\n<p>A redu\u00e7\u00e3o da capacidade foi marginal. Paralisamos 62 plataformas, que produziam 23.000 barris de \u00f3leo por dia. Isso \u00e9 menos do que produz um po\u00e7o do pr\u00e9-sal, cujos volumes giram em torno de 50.000 a 60.000 barris por dia. Se continu\u00e1ssemos a operar, n\u00e3o conseguir\u00edamos pagar o custo da opera\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, eles foram hibernados, e provavelmente vamos desativar esses campos no futuro. Quanto \u00e0 renegocia\u00e7\u00e3o com os fornecedores, j\u00e1 foi conclu\u00edda. Conseguimos a posterga\u00e7\u00e3o de desembolsos para 2021, algumas redu\u00e7\u00f5es de custos, mas n\u00e3o foi t\u00e3o significativo como aconteceu em 2015. Naquela \u00e9poca, n\u00f3s e toda a ind\u00fastria do petr\u00f3leo conseguimos descontos significativos. Nossos fornecedores j\u00e1 est\u00e3o muito estressados por causa da crise atual. V\u00e1rios deles dependem do Brasil porque o corte foi global.<\/p>\n<p><strong>Por outro lado, as vendas de ativos da companhia em campos marginais est\u00e3o gerando novos neg\u00f3cios para petroleiras de menor porte. Isso deve se intensificar?<\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 um evento extremamente positivo para o Brasil e para a economia. S\u00e3o campos que, para uma empresa grande, como a Petrobras, n\u00e3o vale a pena operar. Colocamos \u00e0 venda um n\u00famero significativo de campos em terra e \u00e1guas rasas no Rio Grande do Norte. A produ\u00e7\u00e3o m\u00e9dia era de 5 barris por dia por po\u00e7o. Para um pequeno produtor, esse n\u00famero \u00e9 interessante, pois ele tem uma estrutura de custo muito menor e isso vai ser o grande neg\u00f3cio dele. \u00c9 um neg\u00f3cio que \u00e9 bom para as empresas e para os estados, porque a Petrobras n\u00e3o ia investir.<\/p>\n<p><strong>A venda de campos maduros e de refinarias tem gerado questionamentos na Justi\u00e7a, que chegaram ao STF. O senhor v\u00ea risco de avan\u00e7o desses movimentos?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma quest\u00e3o ideol\u00f3gica por tr\u00e1s disso tudo. Seja no campo da direita, seja no da esquerda, algumas pessoas querem que sua vis\u00e3o de mundo triunfe independentemente de resultados do mundo real. Temos visto grande receptividade na venda de campos por parte de alguns estados, como no Esp\u00edrito Santo. J\u00e1 outros pensam diferente. Respeitamos as diferen\u00e7as ideol\u00f3gicas. Alguns sindicatos t\u00eam entrado com recursos na Justi\u00e7a contra os desinvestimentos, mas t\u00eam perdido. O Judici\u00e1rio entendeu os benef\u00edcios para a popula\u00e7\u00e3o desses estados.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a perspectiva para a venda das refinarias? De alguma forma a pandemia atrapalhou o cronograma?<\/strong><\/p>\n<p>A pandemia atrasou, sim. Todas as refinarias j\u00e1 passaram pela fase de propostas n\u00e3o vinculantes. Foram escolhidas as melhores e esses competidores passaram a fazer due diligence [processo de investiga\u00e7\u00e3o de oportunidade de neg\u00f3cio]. Mas um dos passos desse processo \u00e9 a visita \u00e0s opera\u00e7\u00f5es das refinarias, que geralmente duram dois dias. Tivemos de cancelar v\u00e1rias dessas visitas devido \u00e0 covid-19. No caso da RLAM [Landulpho Alves], que est\u00e1 mais avan\u00e7ada, n\u00e3o tivemos esse problema porque n\u00f3s corremos. \u00c9 um caso de ativo que j\u00e1 tem um comprador aprovado, que deu o maior lance, e est\u00e1 negociando os termos de assinatura de contrato de compra e venda, o que esperamos que aconte\u00e7a neste ano.<\/p>\n<p><strong>A ind\u00fastria petrol\u00edfera sofreu um verdadeiro p\u00e2nico h\u00e1 pouco tempo, com os contratos futuros sendo negociados no terreno negativo. O que podemos esperar daqui para a frente?<\/strong><\/p>\n<p>A ind\u00fastria est\u00e1 passando finalmente por um processo de reestrutura\u00e7\u00e3o, e n\u00f3s tamb\u00e9m. N\u00e3o s\u00f3 a covid-19 mas principalmente a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica v\u00e3o fazer com que a demanda por petr\u00f3leo no mundo cres\u00e7a mais lentamente. Isso significa pre\u00e7os mais baixos. Temos de ter custos menores. Algumas empresas europeias querem investir mais em energias renov\u00e1veis. N\u00f3s, no momento, n\u00e3o estamos prontos para isso.<\/p>\n<p><strong>Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 um neg\u00f3cio que n\u00e3o conhecemos nem t\u00e9cnica nem comercialmente. Preferimos continuar a optar pela descarboniza\u00e7\u00e3o das nossas opera\u00e7\u00f5es e fazer pesquisas. Temos v\u00e1rias em curso, para aprender sobre o neg\u00f3cio de fontes renov\u00e1veis e sobre o que \u00e9 mais adapt\u00e1vel ao contexto de uma companhia de petr\u00f3leo, para assim reagir a essa onda no futuro. No curto prazo, somos a segunda petroleira do mundo em termos de menor emiss\u00e3o de gases de efeito estufa por barril de petr\u00f3leo produzido. Estamos numa excelente posi\u00e7\u00e3o e temos planos de melhorar ainda mais.<\/p>\n<p><strong>E os estudos de combust\u00edveis renov\u00e1veis?<\/strong><\/p>\n<p>O de biorrefino \u00e9 efetivo. Estamos buscando que o diesel renov\u00e1vel seja classificado pelo Conselho Nacional de Pol\u00edtica Energ\u00e9tica como um biocombust\u00edvel e que entre na cota do produto, porque ele reduz bastante as emiss\u00f5es \u2014 cerca de 70% em rela\u00e7\u00e3o ao diesel normal e 15% na compara\u00e7\u00e3o com o biodiesel. Al\u00e9m disso, foi bem-aceito pelos fabricantes de ve\u00edculos.<\/p>\n<p><strong>Para quando a companhia prev\u00ea uma retomada mais robusta do pagamento de dividendos?<\/strong><\/p>\n<p>A Petrobras tem de primeiramente pagar sua d\u00edvida e investir. Possivelmente, daqui a um ou dois anos vamos ter uma d\u00edvida de 60 bilh\u00f5es de d\u00f3lares ou menos, e vamos poder pagar mais dividendos. Mas petroleiras s\u00e3o intensivas em capital. A cada ano, aproximadamente 1 bilh\u00e3o de barris de petr\u00f3leo por dia s\u00e3o perdidos na produ\u00e7\u00e3o e \u00e9 preciso recompor as reservas que foram gastas. Se n\u00e3o houver investimento, a \u00adcompanhia vai desaparecer.<\/p>\n<p><strong>Mas essa queda da curva de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 proporcional ao aumento da oferta global? <\/strong><\/p>\n<p>S\u00f3 vai sobreviver a empresa que tiver custos mais baixos. Quem quiser fazer uma expans\u00e3o a todo custo vai sair do mercado. N\u00e3o ser\u00e1 o caso da Petrobras. Temos v\u00e1rios projetos que suportam o pre\u00e7o do petr\u00f3leo muito baixo, de 35 d\u00f3lares em m\u00e9dia, e estamos investindo em inova\u00e7\u00e3o para melhorar mais ainda essa produtividade e viabilizar a opera\u00e7\u00e3o de outros campos.<\/p>\n<p><strong>Onde a Petrobras deve estar daqui a 20 ou 30 anos?<\/strong><\/p>\n<p>O mundo est\u00e1 mudando muito rapidamente. Daqui a dez anos, quero ver a Petrobras como uma das melhores companhias do mundo em termos de gera\u00e7\u00e3o de valor, focada em petr\u00f3leo e g\u00e1s, com alguma atividade em refino, talvez com g\u00e1s natural, mas com custo baixo, sendo supereficiente, uma empresa \u00e1gil. Estamos plantando as sementes para isso, mas muita coisa tem de ser feita ainda.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fonte: Exame A centen\u00e1ria ind\u00fastria do petr\u00f3leo passou por diversos choques ao longo de sua hist\u00f3ria, com consequ\u00eancias avassaladoras para a economia global. Em 2020, o estrago causado pela pandemia de covid-19 no setor trar\u00e1 efeitos permanentes para as petroleiras. No caso da Petrobras, o cen\u00e1rio n\u00e3o ser\u00e1 diferente. 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