{"id":32348,"date":"2022-07-29T12:15:49","date_gmt":"2022-07-29T15:15:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sindigas.org.br\/?p=32348"},"modified":"2022-07-29T12:16:47","modified_gmt":"2022-07-29T15:16:47","slug":"combater-pobreza-energetica-deveria-ser-a-prioridade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sindigas.org.br\/?p=32348","title":{"rendered":"\u2018Combater pobreza energ\u00e9tica deveria ser a prioridade\u2019"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/noticia\/nid\/combater-pobreza-energetica-deveria-ser-a-prioridade\/?utm_source=correio24h_share_whatsapp\">Correio 24 Horas<\/a> \/ imagem: <span>Rodrigo Miguez\/<\/span>Sindig\u00e1s<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ENTREVISTA: S\u00e9rgio Bandeira de Mello<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A lenha ainda \u00e9 a principal fonte de energia para 26% dos lares brasileiros \u2013 isso com base em dados anteriores \u00e0 pandemia. E ao contr\u00e1rio do que se pode imaginar, n\u00e3o se tratam de fam\u00edlias que, romanticamente, cozinham uma ou outra refei\u00e7\u00e3o especial num fog\u00e3o projetado para as pe\u00e7as de madeira. A realidade, diz S\u00e9rgio Bandeira de Mello \u2013 presidente do Sindig\u00e1s, entidade que congrega os principais distribuidores de GLP do Brasil \u2013 \u00e9 que o uso de peda\u00e7os de madeira, quase sempre catados, escondem uma realidade de pobreza energ\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quem \u00e9 <\/strong><strong>Sergio Bandeira de Mello\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Graduado em Engenharia Civil pela Universidade Federal Fluminense, desempenhou diversas fun\u00e7\u00f5es no Setor do Petr\u00f3leo, tendo iniciado sua carreira na Texaco Brasil, onde ocupou v\u00e1rias fun\u00e7\u00f5es, de gerente regional, at\u00e9 ser o presidente da empresa no Peru.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como \u00e9 que funciona o mercado de GLP no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O GLP, o g\u00e1s liquefeito de petr\u00f3leo, tem esse nome porque com baix\u00edssima press\u00e3o voc\u00ea consegue pegar um g\u00e1s e tornar ele l\u00edquido. A press\u00e3o dentro de um botij\u00e3o \u00e9 pr\u00f3xima \u00e0 de uma latinha de refrigerante, relativamente baixa. E quando se abre a v\u00e1lvula, se gaseifica imediatamente. S\u00e3o caracter\u00edsticas incr\u00edveis para utilizar no dia a dia e em uma infinidade de aplica\u00e7\u00f5es. O in\u00edcio do uso do g\u00e1s se d\u00e1 de forma curiosa. Tinha os dirig\u00edveis que voavam pelo mundo e voc\u00ea tinha tanques de reabastecimento e o GLP era usado para os motores de propuls\u00e3o. Depois que os dirig\u00edveis deixaram de ser usados, um empres\u00e1rio pensou no uso para substituir os fog\u00f5es \u00e0 lenha, como j\u00e1 acontecia em outros locais. Foi como se come\u00e7ou a colocar o g\u00e1s em latas. Foi uma alternativa aos carvoeiros, que iam de porta em porta entregar carv\u00e3o nas casas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual a import\u00e2ncia do GLP hoje?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tem um papel importante na nossa matriz energ\u00e9tica, ocupa de 3% a 4% do total e 24% \u00e0 matriz residencial. \u00c9 algo expressivo. Se fala muito do g\u00e1s natural, mas hoje ainda \u00e9 um tra\u00e7o, cerca de 1% nos lares. Isso sem falar nos usos comerciais e na ind\u00fastria. Entretanto, a conversa sempre vai acabar voltando para o botij\u00e3o de 13 quilos. Eu destaco tamb\u00e9m a robusta estrutura de distribui\u00e7\u00e3o que temos no Brasil, \u00e9 algo espetacular. Temos 20 distribuidoras, que recebem o produto das refinarias da Petrobras ou das refinarias privadas, processam e \u00a0embalam. Al\u00e9m disso, s\u00e3o cerca de 60 mil pontos de revenda distribu\u00eddos pelo pa\u00eds. \u00c9 uma cobertura de 100% dos munic\u00edpios do pa\u00eds. A gente chega onde os Correios n\u00e3o chegam e acredito que s\u00f3 as igrejas tenham a mesma penetra\u00e7\u00e3o. \u00a0Fazemos entrega porta a porta e o consumidor, normalmente, tem a expectativa de que a gente fa\u00e7a a troca do botij\u00e3o para ele. S\u00f3 de botij\u00f5es de 13 quilos no Brasil s\u00e3o comercializados 35 milh\u00f5es por m\u00eas. Isso d\u00e1 em torno de 14 botij\u00f5es entregues por segundo. Eu sempre digo que a gente comercializa mais log\u00edstica que g\u00e1s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea acha que o g\u00e1s aqui no Brasil \u00e9 caro? Como n\u00f3s estamos em compara\u00e7\u00e3o com outros mercados. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O debate do pre\u00e7o \u00e9 sempre quente. A gente j\u00e1 fez v\u00e1rios comparativos e eu n\u00e3o tenho um atualizado agora, mas nosso hist\u00f3rico mostra pre\u00e7os pr\u00f3ximos ao de outros mercados e at\u00e9 um pouco mais barato que o de outros mercados latino-americanos, por exemplo, porque temos uma escala muito grande. Agora, em rela\u00e7\u00e3o a pre\u00e7o, tem uma coisa at\u00e9 meio antip\u00e1tica de dizer, mas para dizer que uma coisa est\u00e1 cara, precisamos olhar para as alternativas. Claro que eu posso dizer que o pre\u00e7o evoluiu de maneira agressiva desde o in\u00edcio da pandemia, quando custava em m\u00e9dia R$ 68 e agora passou para R$ 120, mais ou menos. Subiu muito, mas n\u00e3o est\u00e1 caro se compararmos para as alternativas. Tem gente migrando para fornos el\u00e9tricos, air frier, mas n\u00e3o fizeram as contas. A eletricidade custa mais caro que o g\u00e1s. O g\u00e1s natural para uso dom\u00e9stico tamb\u00e9m \u00e9 mais caro porque ele demanda a instala\u00e7\u00e3o de dutos para levar o produto aos pontos de consumo. Transportar enlatado ainda \u00e9 uma alternativa muito competitiva. Um botij\u00e3o dura em m\u00e9dia 56 dias no Brasil, ent\u00e3o, mesmo com o produto a R$ 100, ele custa R$ 50 por m\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Contando a hist\u00f3ria do GLP, voc\u00ea menciona que o produto surge como uma alternativa \u00e0 lenha. Como \u00e9 o uso de madeira para produ\u00e7\u00e3o de energia hoje?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu tenho n\u00fameros estarrecedores. A gente gasta muita energia falando que o botij\u00e3o est\u00e1 caro e ficamos buscando ideia m\u00e1gica para tirar o botij\u00e3o de R$ 120 para R$ 100. Deixa eu te contar uma coisa, a\u00ed na Bahia, com o botij\u00e3o a R$ 63 e a R$ 69 no Brasil, voc\u00ea tinha um consumo de lenha matriz energ\u00e9tica nacional de 26%, maior que o GLP. O fog\u00e3o a lenha \u00e9 ineficiente do ponto de vista t\u00e9rmico. Tirando o romantismo de que a comida fica mais gostosa, estamos falando de uma fonte ineficiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu imagino que este n\u00famero que voc\u00ea coloca seja de pessoas que usam a lenha diariamente e n\u00e3o apenas como uma op\u00e7\u00e3o ocasional. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em determinados n\u00edveis sociais, o forno a lenha \u00e9 usado uma vez no m\u00eas para fazer uma pizza com os amigos, mas para ocupar 26% da matriz energ\u00e9tica residencial, tem uma parcela da sociedade que est\u00e1 consumindo todo santo dia. E tem uma coisa, a gente n\u00e3o cruza nas ruas e nas estradas com caminh\u00f5es de lenha, como t\u00eam os caminh\u00f5es de botij\u00f5es. Ent\u00e3o, n\u00e3o estamos falando de uma lenha de uma floresta plantada, mas de lenha catada, resto de feira ou sobra da constru\u00e7\u00e3o civil. N\u00f3s n\u00e3o temos um estudo atualizado, mas temos certeza de que este cen\u00e1rio se agravou com o botij\u00e3o acima de R$ 120. N\u00f3s acreditamos que a prioridade n\u00e3o \u00e9 buscar uma m\u00e1gica fiscal para baixar o pre\u00e7o do botij\u00e3o artificialmente, mas encarar a realidade de que uma parcela da sociedade enfrenta um processo de pobreza energ\u00e9tica. Esse \u00e9 um termo da ONU para falar de um cen\u00e1rio em que parcela da sociedade n\u00e3o tem acesso a fontes seguras de energia e migra para energ\u00e9ticos perigosos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 um contexto de grande vulnerabilidade.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, a gente chama de fog\u00e3o a lenha, mas na realidade \u00e9 uma fogueira, com dois tijolos, em que tem o risco da queimadura, de inalar gazes perigosos. Quando a gente fala com o governo, tentamos alertar para os cuidados nas iniciativas de criar uma artificializa\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os para baixar o pre\u00e7o geral. O gasto fiscal ser\u00e1 alto com um efeito baixo. Nossa vis\u00e3o \u00e9 que o pre\u00e7o \u00e9 resultado de mercado e n\u00e3o tem como desatrelar disso. Se o governo pretende fazer algo, existem sa\u00eddas mais l\u00f3gicas, que passam pelo combate \u00e0 pobreza energ\u00e9tica. O alvo deveria ser diminuir a participa\u00e7\u00e3o da lenha nas resid\u00eancias. Isso precisa ser feito de maneira t\u00e9cnica, com dados, e atrelado \u00e0 capacidade fiscal do governo. Se n\u00e3o d\u00e1 para resolver em cinco anos, que se resolva em dez anos. E ainda tem um ponto, \u00e9 preciso que o recurso v\u00e1 para quem necessita e que v\u00e1 para atender essa finalidade espec\u00edfica. Pode ser um cart\u00e3o, ou qualquer outra ferramenta, mas tem que ser exclusivamente para adquirir a fonte de energia. A ideia n\u00e3o \u00e9 me fazer vender mais g\u00e1s, a gente considera que a pobreza energ\u00e9tica \u00e9 o inimigo social. Este uso prec\u00e1rio da lenha faz um mal terr\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como o Sindig\u00e1s avalia o Aux\u00edlio G\u00e1s?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A gente acredita que o programa andou 80% do caminho. \u00c9 bom deixar claro que n\u00e3o foi uma iniciativa nossa. Gostaria at\u00e9 de dizer que o nosso looby \u00e9 eficiente e n\u00f3s quem conseguimos viabilizar este programa, mas na verdade, a situa\u00e7\u00e3o do aumento da pobreza causado no momento inicial do isolamento social criou situa\u00e7\u00f5es t\u00e3o graves que levou o Congresso Nacional a se movimentar. Eles procuraram focalizar o problema numa quantidade de fam\u00edlias, 5 milh\u00f5es, determinaram que o programa seria para a compra de g\u00e1s. Eu acho que o problema \u00e9 apenas o fato de n\u00e3o terem carimbado os recursos. Ficou faltando apenas isso porque o que est\u00e1 acontecendo, n\u00e3o \u00e9 uma cr\u00edtica, as fam\u00edlias est\u00e3o em dificuldades t\u00e3o grandes e com tantas prioridades, que recebem este dinheiro e v\u00e3o comprar prote\u00edna e carboidrato para sobreviver. Com o dinheiro do Aux\u00edlio G\u00e1s, compram comida e continuam cozinhando na lenha. Est\u00e1 transferindo renda. Voc\u00ea pode dizer que o uso \u00e9 mais nobre, mas o objetivo do programa \u00e9 aumentar o acesso ao GLP.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fonte: Correio 24 Horas \/ imagem: Rodrigo Miguez\/Sindig\u00e1s ENTREVISTA: S\u00e9rgio Bandeira de Mello A lenha ainda \u00e9 a principal fonte de energia para 26% dos lares brasileiros \u2013 isso com base em dados anteriores \u00e0 pandemia. 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