{"id":36544,"date":"2023-03-03T20:57:03","date_gmt":"2023-03-03T23:57:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sindigas.org.br\/?p=36544"},"modified":"2023-03-03T20:57:03","modified_gmt":"2023-03-03T23:57:03","slug":"supermajors-resultados-impressionantes-sugerem-nova-estrategia-de-alocacao-de-recursos-por-felipe-kury","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sindigas.org.br\/?p=36544","title":{"rendered":"\u201cSupermajors: resultados impressionantes sugerem nova estrat\u00e9gia de aloca\u00e7\u00e3o de recursos\u201d, por Felipe Kury"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fonte: <a href=\"https:\/\/fullenergy.grupomidia.com\/supermajors-resultados-impressionantes-sugerem-nova-estrategia-de-alocacao-de-recursos-por-felipe-kury\/\">Full Energy<\/a> \/ imagem: Geraldo Magela\/Ag\u00eancia Senado<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s dois anos de pre\u00e7os da energia nas alturas, efeitos do p\u00f3s-pandemia e prolongamento do conflito entre R\u00fassia e Ucr\u00e2nia, as maiores empresas de petr\u00f3leo do mundo acumularam enormes somas de recursos com resultados financeiros impressionantes no ano de 2022.<\/p>\n<p>Em fevereiro, a Shell divulgou lucro l\u00edquido anual de US$ 42 bilh\u00f5es, mais que o dobro do valor do ano anterior e o maior em mais de um s\u00e9culo como empresa de capital aberto. Seguindo a rodada de an\u00fancios, a norte-americana ExxonMobil anunciou um lucro l\u00edquido anual recorde de US$ 56 bilh\u00f5es. Sua principal concorrente nos EUA, a Chevron, informou que seu lucro l\u00edquido anual mais que dobrou, chegando a cerca de US$ 37 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>J\u00e1 na Europa, a norueguesa Equinor apresentou lucro l\u00edquido recorde de US$ 28,7 bilh\u00f5es, acima dos US$ 8,6 bilh\u00f5es do ano anterior. Na sequ\u00eancia, a gigante brit\u00e2nica BP anunciou lucro anual recorde de quase US$ 28 bilh\u00f5es, o maior nos 114 anos de hist\u00f3ria da empresa \u2013 e mais que o dobro do ano anterior.<\/p>\n<p>E, finalmente, a petrol\u00edfera francesa TotalEnergies, registrou um lucro l\u00edquido recorde de US$ 36,2 bilh\u00f5es \u2013 o dobro do ano anterior, juntando-se aos lucros abundantes do setor gra\u00e7as aos pre\u00e7os mais altos do petr\u00f3leo e g\u00e1s natural, desde o in\u00edcio do conflito entre R\u00fassia e Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>No Brasil, como integrante do grupo de<span>\u00a0<\/span><em>National Oil Companies (NOCs)<\/em>, a Petrobras tamb\u00e9m apresentou resultados expressivos em 2022, com recordes de lucro l\u00edquido recorrente e EBITDA, respectivamente, de US$ 34 bilh\u00f5es (113% em rela\u00e7\u00e3o 2021) e US$ 67 bilh\u00f5es (47,5% em rela\u00e7\u00e3o a 2021). Adicionalmente, a empresa recolheu o valor recorde aproximado de US$ 54 bilh\u00f5es em tributos e participa\u00e7\u00f5es governamentais, superando a marca de R$ 1 trilh\u00e3o na soma dos \u00faltimos cinco anos.<\/p>\n<p>E, finalmente, no ranking mundial de pagamentos de dividendos, a estatal foi a segunda maior pagadora do mundo em 2022, tendo distribu\u00eddo US$ 21,7 bilh\u00f5es em proventos, mais que o dobro dos dep\u00f3sitos de 2021, que somou US$ 9,1 bilh\u00f5es \u2013 perdendo somente para a mineradora australiana BHP que pagou US$ 23,5 bilh\u00f5es em dividendos aos seus investidores.<\/p>\n<p>Os excelentes balan\u00e7os do ano pagam dividendos excepcionais aos investidores e ajudam a reduzir o endividamento das empresas, mas o mais importante: motiva um realinhamento na estrat\u00e9gia de aloca\u00e7\u00e3o de recursos, dada a atual conjuntura. De fato, ap\u00f3s v\u00e1rios anos de investimentos limitados em petr\u00f3leo e g\u00e1s natural \u2013 resultado do choque de demanda provocado pela pandemia, pol\u00edticas mais abrangentes de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas \u2013 as grandes petrol\u00edferas est\u00e3o, mais uma vez, intensificando investimentos em explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>De acordo com a S&amp;P Global, estima-se que os investimentos de capital<span>\u00a0<\/span><em>(capex)<\/em><span>\u00a0<\/span>no<span>\u00a0<\/span><em>Upstream<\/em><span>\u00a0<\/span>(Explora\u00e7\u00e3o e Produ\u00e7\u00e3o de Petr\u00f3leo) em todo o mundo foram de cerca de US$ 450 bilh\u00f5es em 2022. Este valor inclui petrol\u00edferas<span>\u00a0<\/span><em>supermajors<\/em><span>\u00a0<\/span>e nacionais (NOCs), e configura um bem acima da m\u00ednima dos \u00faltimos 15 anos, que foi cerca de US$ 350 bilh\u00f5es. Por\u00e9m, os investimentos em<span>\u00a0<\/span><em>capex<\/em><span>\u00a0<\/span>ainda est\u00e3o muito aqu\u00e9m da m\u00e1xima, que foi cerca de US$ 800 bilh\u00f5es, em 2014.<\/p>\n<p>Entretanto, a novidade \u00e9 resultado da nova conjuntura geopol\u00edtica. Verifica-se que as empresas est\u00e3o mais avessas \u00e0s regi\u00f5es com alto risco pol\u00edtico e\/ou infraestrutura prec\u00e1ria para comercializar a produ\u00e7\u00e3o. As empresas americanas, por exemplo, est\u00e3o evitando regi\u00f5es de novas fronteiras \u2013 especialmente as com alto risco pol\u00edtico e que carecem de infraestrutura.<\/p>\n<p>J\u00e1 as europeias, talvez um pouco mais arrojadas, est\u00e3o reavaliando, e em alguns casos rejeitando, projetos nos EUA em favor de projetos na \u00c1frica \u2013 com maior potencial petrol\u00edfero e menos restri\u00e7\u00f5es ambientais. De qualquer \u00e2ngulo que se examine este movimento, percebe-se que existe uma grande mudan\u00e7a na estrat\u00e9gia de aloca\u00e7\u00e3o de recursos pelas principais companhias de petr\u00f3leo do mundo.<\/p>\n<p>Em um artigo publicado recentemente na revista<span>\u00a0<\/span><em>The Economist<\/em><span>\u00a0<\/span>s\u00e3o citados alguns exemplos. As<span>\u00a0<\/span><em>supermajors<\/em><span>\u00a0<\/span>americanas t\u00eam demonstrado maior interesse em investimentos nos EUA e em algumas regi\u00f5es da Am\u00e9rica Latina. A ExxonMobil, assim como a maioria das empresas ocidentais, deixou a R\u00fassia ap\u00f3s a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m se desfez \u2013 ou quer se desfazer \u2013 de ativos em pa\u00edses do continente africano, como Camar\u00f5es, Chade, Guin\u00e9 Equatorial e Nig\u00e9ria. A Chevron vendeu projetos na Gr\u00e3-Bretanha e na Dinamarca (bem como no Brasil) e n\u00e3o renovou as concess\u00f5es vencidas na Indon\u00e9sia e na Tail\u00e2ndia.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos 10 anos, a ExxonMobil tem investido de forma mais intensa em novos campos na Guiana, onde obteve resultados bastantes promissores. J\u00e1 a Chevron pretende canalizar mais de um ter\u00e7o de seus investimentos este ano para o<span>\u00a0<\/span><em>shale gas<\/em><span>\u00a0<\/span>americano e cerca de 20% para projetos no Golfo do M\u00e9xico. E, mais recentemente, com anu\u00eancia do governo americano, reiniciou o com\u00e9rcio de petr\u00f3leo bruto na Venezuela.<\/p>\n<p>Em movimento similar, as<span>\u00a0<\/span><em>supermajors<\/em><span>\u00a0<\/span>europeias est\u00e3o reduzindo sua exposi\u00e7\u00e3o em \u00e1reas de maior risco. Assim como a ExxonMobil, a BP e a Shell est\u00e3o deixando a R\u00fassia, o que representa importantes ajustes cont\u00e1beis de US$ 25 bilh\u00f5es e US$ 5 bilh\u00f5es, respectivamente. A Shell tamb\u00e9m se desfez de seus ativos de<span>\u00a0<\/span><em>shale gas<\/em><span>\u00a0<\/span>no Texas e colocou outros \u00e0 venda no Golfo do M\u00e9xico. A BP est\u00e1 se desfazendo de seus ativos no M\u00e9xico e, existe movimenta\u00e7\u00e3o para sair de Angola, Azerbaij\u00e3o, Iraque, Om\u00e3 e Emirados \u00c1rabes Unidos. E, n\u00e3o menos importante, a TotalEnergies est\u00e1 saindo das areias betuminosas do Canad\u00e1.<\/p>\n<p>As empresas europeias est\u00e3o com maior interesse em regi\u00f5es ao sul do continente europeu \u2013 no caso, a \u00c1frica. De fato, a Europa busca alternativas para substituir a energia proveniente da R\u00fassia. Recentemente, a Shell e a norueguesa Equinor assinaram um acordo com a Tanz\u00e2nia, pa\u00eds do leste africano, para construir um terminal de g\u00e1s natural liquefeito (GNL), de US$ 30 bilh\u00f5es. A francesa TotalEnergies pretende investir em projetos de g\u00e1s natural em Mo\u00e7ambique e na \u00c1frica do Sul. J\u00e1 a italiana Eni, anunciou um contrato de g\u00e1s natural de US$ 8 bilh\u00f5es com a estatal<span>\u00a0<\/span><em>National Oil Corporation,<\/em><span>\u00a0<\/span>da L\u00edbia.<\/p>\n<p>Importante destacar as principais motiva\u00e7\u00f5es para esse realinhamento. A primeira, e talvez a mais importante, tem a ver com a rela\u00e7\u00e3o risco\/retorno dos projetos. Em um passado n\u00e3o muito distante, de altos pre\u00e7os do petr\u00f3leo, houve muitos investimentos com pouco controle de custos e muito desperd\u00edcio, impactando o retorno para os acionistas. Nos anos anteriores \u00e0 pandemia, in\u00fameros projetos de petr\u00f3leo em todo mundo perderam bilh\u00f5es de d\u00f3lares, prejudicando fortemente o retorno esperado por acionistas.<\/p>\n<p>Na conjuntura atual, os investidores est\u00e3o exigindo uma disciplina de aloca\u00e7\u00e3o de capital muito maior das<span>\u00a0<\/span><em>supermajors<\/em>. A maior parte dos investimentos busca retornos em um ciclo mais curto, entre cinco anos e dez anos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, existe um foco muito maior em efici\u00eancia e utiliza\u00e7\u00e3o de novas tecnologias, tais como: intelig\u00eancia artificial, automa\u00e7\u00e3o, big data, rob\u00f3tica, entre outras, com os objetivos de aumentar a produtividade e seguran\u00e7a operacional. Desta forma, todo este movimento significa menor quantidade de projetos em regi\u00f5es de maior risco pol\u00edtico e\/ou \u00e1reas com infraestrutura prec\u00e1ria ou maior risco geol\u00f3gico em prol de regi\u00f5es que possam resultar em uma rela\u00e7\u00e3o risco\/retorno maior.<\/p>\n<p>Outro fator importante, talvez mais evidente na<span>\u00a0<\/span><em>supermajors<\/em><span>\u00a0<\/span>europeias, tem a ver com as press\u00f5es para descarboniza\u00e7\u00e3o dos seus portf\u00f3lios e iniciativas para acelerar a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. Muitas regi\u00f5es ao sul do hemisf\u00e9rio (tanto na Am\u00e9rica Latina quanto na \u00c1frica), apresentam abund\u00e2ncia de recursos naturais e \u00e1reas que favorecem projetos de energia renov\u00e1vel \u2013 principalmente para produ\u00e7\u00e3o de hidrog\u00eanio limpo, energia solar, e\u00f3lica e h\u00eddrica.<\/p>\n<p>Como fica o Brasil neste contexto? O pa\u00eds possui excelentes condi\u00e7\u00f5es para continuar atraindo novos investimentos das<span>\u00a0<\/span><em>supermajors.<\/em><span>\u00a0<\/span>Apesar de algumas incertezas no curto prazo, em fun\u00e7\u00e3o da transi\u00e7\u00e3o de governo, o Brasil conta com expectativas de investimentos diretos e indiretos, na ordem de US$ 428 bilh\u00f5es para os pr\u00f3ximos 10 anos, segundo a EPE (Empresa de Pesquisa Energ\u00e9tica) \u2013 fruto de in\u00fameras reformas no setor de petr\u00f3leo, g\u00e1s natural e biocombust\u00edveis, nos \u00faltimos anos.Al\u00e9m disso, o pa\u00eds conta com uma abund\u00e2ncia de recursos naturais e in\u00fameras possibilidades de gera\u00e7\u00e3o de energia renov\u00e1vel, que podem garantir excelentes projetos de descarboniza\u00e7\u00e3o para o portf\u00f3lio das<span>\u00a0<\/span><em>supermajors<\/em>.<\/p>\n<p>Por fim, a crise global de energia, al\u00e9m dos sinais de uma poss\u00edvel recess\u00e3o nas maiores economias do mundo, ainda prevalece. Desta forma, governos precisam responder com pol\u00edticas mais fortes a fim de garantir a seguran\u00e7a energ\u00e9tica e acelerar a transi\u00e7\u00e3o para fontes mais limpas.<\/p>\n<p>O momento oferece oportunidades incr\u00edveis para muitos pa\u00edses, em especial, para o Brasil. Contudo, \u00e9 necess\u00e1rio que o pa\u00eds estabele\u00e7a diretrizes claras e objetivas para o setor, al\u00e9m de estabilidade, previsibilidade e seguran\u00e7a jur\u00eddica \u2013 proporcionando, assim, um ambiente de neg\u00f3cios mais favor\u00e1vel a novos investimentos e uma rela\u00e7\u00e3o risco\/retorno superior aos seus pares no mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fonte: Full Energy \/ imagem: Geraldo Magela\/Ag\u00eancia Senado Ap\u00f3s dois anos de pre\u00e7os da energia nas alturas, efeitos do p\u00f3s-pandemia e prolongamento do conflito entre R\u00fassia e Ucr\u00e2nia, as maiores empresas de petr\u00f3leo do mundo acumularam enormes somas de recursos com resultados financeiros impressionantes no ano de 2022. 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