{"id":45731,"date":"2026-07-17T10:47:00","date_gmt":"2026-07-17T13:47:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sindigas.org.br\/?p=45731"},"modified":"2026-07-17T10:47:00","modified_gmt":"2026-07-17T13:47:00","slug":"quem-pode-encher-o-botijao-a-disputa-no-gas-de-cozinha-que-opoe-ultragaz-e-copagaz-as-revendas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sindigas.org.br\/?p=45731","title":{"rendered":"Quem pode encher o botij\u00e3o? A disputa no g\u00e1s de cozinha que op\u00f5e Ultragaz e Copagaz \u00e0s revendas"},"content":{"rendered":"<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/investnews.com.br\/negocios\/disputa-gas-cozinha-anp\/\">InvestNews<\/a> \/ imagem: Sindig\u00e1s<\/p>\n<p><strong>Por Rikardy Tooge<\/strong><\/p>\n<p>Uma disputa de bilh\u00f5es pelo g\u00e1s de cozinha do brasileiro op\u00f5e as maiores distribuidoras do pa\u00eds, como\u00a0<strong>Ultragaz<\/strong>,\u00a0<strong>Copa Energia<\/strong>\u00a0(dona de\u00a0<strong>Liquig\u00e1s<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Copagaz<\/strong>),\u00a0<strong>Supergasbras<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Nacional G\u00e1s<\/strong>, a revendas e novos entrantes que querem quebrar o modelo em que elas operam h\u00e1 d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Est\u00e1 em jogo a forma como a popula\u00e7\u00e3o compra o\u00a0<strong>GLP<\/strong>, nome t\u00e9cnico do g\u00e1s de cozinha, um dos itens mais caros do or\u00e7amento familiar, e quem tem o direito de ench\u00ea-lo.<\/p>\n<p>No g\u00e1s de cozinha, distribuidoras como Ultragaz e Copagaz compram o GLP da<span>\u00a0<\/span><strong><a href=\"https:\/\/investnews.com.br\/tag\/petrobras\/\">Petrobras<\/a><\/strong>, enchem os botij\u00f5es com sua marca e respondem por eles. J\u00e1 a revenda \u00e9 o elo seguinte: o com\u00e9rcio de bairro que compra os botij\u00f5es cheios e os leva at\u00e9 a porta do cliente \u2013 aquele caminh\u00e3o com a musiquinha inconfund\u00edvel quase sempre \u00e9 do revendedor, embora a melodia anuncie o nome da distribuidora.<\/p>\n<p>De um lado, as grandes empresas, que juntas concentram quase 90% do mercado, defendem o desenho atual, em que cada uma investe no pr\u00f3prio botij\u00e3o, responde por ele e s\u00f3 enche o vasilhame da sua marca.<\/p>\n<p>De outro, revendas e companhias como a fintech<span>\u00a0<\/span><strong>PayGas<\/strong><span>\u00a0<\/span>sustentam o entendimento de que esse modelo \u00e9 concentrado, pouco competitivo e encarece o g\u00e1s na ponta, e querem poder comprar de qualquer fornecedor e envasar por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>No centro da disputa est\u00e1 o<span>\u00a0<\/span><strong>reenvase<\/strong>: a possibilidade de uma empresa encher o botij\u00e3o de marca de terceiros, pr\u00e1tica hoje proibida, j\u00e1 que cada vasilhame s\u00f3 pode ser recarregado por sua dona.<\/p>\n<p>A<span>\u00a0<\/span><strong>ANP<\/strong><span>\u00a0<\/span>(Ag\u00eancia Nacional do Petr\u00f3leo, G\u00e1s Natural e Biocombust\u00edveis) chegou a estudar e permitir o fracionamento, em que o consumidor compraria g\u00e1s por quilo e completaria um botij\u00e3o j\u00e1 em uso, como se abastecesse um carro. Essa hip\u00f3tese, por\u00e9m, j\u00e1 est\u00e1 vetada por lei.<\/p>\n<p>O que restou em jogo, e move a queda de bra\u00e7o atual, \u00e9 quem ganha o direito de encher o botij\u00e3o: Ultragaz, Liquig\u00e1s e outras ou as revendas espalhadas pelas cidades.<\/p>\n<p>Mediando o embate, a ANP chegou a analisar uma minuta de resolu\u00e7\u00e3o que abriria o mercado, mas paralisou a discuss\u00e3o no come\u00e7o de junho, alegando a necessidade de concentrar esfor\u00e7os nos efeitos da Guerra no Ir\u00e3 sobre o pre\u00e7o dos combust\u00edveis.<\/p>\n<p>O desfecho recai sobre um item que pesa de forma desigual no or\u00e7amento do brasileiro. A Pesquisa de Or\u00e7amentos Familiares do IBGE mais recente mostrou que o g\u00e1s de cozinha consome 11 vezes mais da renda das fam\u00edlias que ganham at\u00e9 dois sal\u00e1rios m\u00ednimos do que aquelas acima de 25.<\/p>\n<p>O mercado \u00e9 proporcional \u00e0 conta dom\u00e9stica: \u00e9 um segmento que movimenta cerca de R$ 60 bilh\u00f5es por ano, dos quais R$ 44 bilh\u00f5es ficam com as distribuidoras, e R$ 16 bilh\u00f5es, com as revendas, segundo o Sindig\u00e1s, entidade que representa as grandes empresas.<\/p>\n<p><strong>A cadeia do g\u00e1s de cozinha<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 18px;\">Os dois lados concordam em um ponto: o g\u00e1s em si, a mol\u00e9cula que sai das refinarias, \u00e9 uma <\/span><em style=\"font-size: 18px;\">commodity<\/em><span style=\"font-size: 18px;\">\u00a0<\/span><span style=\"font-size: 18px;\">vendida por um fornecedor praticamente \u00fanico, a Petrobras, com pre\u00e7o igual para todos. A briga \u00e9 sobre o que acontece depois.<\/span><\/p>\n<p>Para as grandes empresas, n\u00e3o h\u00e1 gordura para cortar. O argumento de<span>\u00a0<\/span><strong>S\u00e9rgio Bandeira de Mello<\/strong>, presidente do<span>\u00a0<\/span><strong>Sindig\u00e1s<\/strong>, \u00e9 que g\u00e1s de cozinha \u00e9 neg\u00f3cio de capital intensivo e de escala, e que um entrante pequeno n\u00e3o teria como oferecer pre\u00e7o menor de verdade, apenas desorganizaria a cadeia.<\/p>\n<p>\u201cEu digo que o nosso neg\u00f3cio se parece mais com o de Natura e Avon do que com postos de gasolina\u201d, afirma.<\/p>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o \u00e9 uma defesa da exclusividade de marca.\u00a0Assim como as duas empresas de cosm\u00e9ticos vendem por meio de revendedoras que apenas entregam \u00e0 porta do cliente um produto que continua sendo da marca, o Sindig\u00e1s enxerga a distribuidora como dona do botij\u00e3o e respons\u00e1vel pelo g\u00e1s que est\u00e1 l\u00e1 dentro, a quantidade certa, a qualidade, a seguran\u00e7a do vasilhame.<\/p>\n<p>A revenda seria o canal que entrega, n\u00e3o a dona do que distribui. Um posto de gasolina, ao contr\u00e1rio, revende um combust\u00edvel que passa a ser seu. Para Bandeira de Mello, tratar o g\u00e1s como o posto trata a gasolina ignora que o valor e a responsabilidade est\u00e3o no botij\u00e3o de marca, e n\u00e3o na venda avulsa do produto.<\/p>\n<p>No g\u00e1s, argumenta, a embalagem \u00e9 parte fundamental da cadeia porque custa mais que o pr\u00f3prio produto e \u00e9 um item de seguran\u00e7a. \u201cEu vou pagar R$ 300 por um botij\u00e3o. O l\u00edquido que faz g\u00e1s na hora de usar custa R$ 100. Eu n\u00e3o posso jogar a embalagem fora\u201d, refor\u00e7a.<\/p>\n<p>J\u00e1 para revendas e entrantes, o pre\u00e7o alto do g\u00e1s de cozinha n\u00e3o est\u00e1 na mol\u00e9cula, e, sim, na margem. A tese se apoia em um dado da<span>\u00a0<\/span><strong>EPE<\/strong><span>\u00a0<\/span>(Empresa de Pesquisa Energ\u00e9tica) de 2024, segundo o qual mais da metade do pre\u00e7o final do botij\u00e3o corresponde \u00e0s margens brutas de distribui\u00e7\u00e3o e revenda.<\/p>\n<p>Para esse grupo, se metade do pre\u00e7o \u00e9 margem, e quatro grupos controlam quase 90% do mercado, ent\u00e3o haveria gordura a espremer por competi\u00e7\u00e3o. Em declara\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, o presidente da<span>\u00a0<\/span><strong>Abrag\u00e1s<\/strong>,<span>\u00a0<\/span><strong>Jos\u00e9 Luiz Rocha<\/strong>, que representa as revendas, diz que o modelo atual prende os pequenos a um \u00fanico fornecedor, o que os impediria de oferecer pre\u00e7os menores.<\/p>\n<p>\u201cA revenda quer escapar dessas amarras e ter op\u00e7\u00e3o de compra\u201d, disse Rocha. O<span>\u00a0<\/span><strong>InvestNews<\/strong><span>\u00a0<\/span>tentou uma entrevista com a Abrag\u00e1s, mas n\u00e3o obteve retorno.<\/p>\n<p><strong>A conta do botij\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Por tr\u00e1s da tese de que abrir o mercado n\u00e3o baixaria o pre\u00e7o, h\u00e1 um segundo ponto que sustenta a defesa das grandes empresas: o capital investido no parque de botij\u00f5es.<\/p>\n<p>O vasilhame de a\u00e7o, por \u00f3bvio, n\u00e3o \u00e9 descart\u00e1vel. O botij\u00e3o de 13 quilos, o <strong>P13<\/strong>, passa por requalifica\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria 15 anos ap\u00f3s a fabrica\u00e7\u00e3o, e, a partir da\u00ed a cada dez anos, por teste de resist\u00eancia e de vazamento.<\/p>\n<p>Requalificado sucessivamente, circula por cerca de 45 anos, e \u00e9 a distribuidora dona da marca que paga cada etapa. Um investimento de bilh\u00f5es, argumenta Bandeira de Mello.<\/p>\n<p>Hoje circulam cerca de 141 milh\u00f5es de botij\u00f5es de at\u00e9 13 quilos e s\u00f3 em 2025 aproximadamente 22 milh\u00f5es passaram por requalifica\u00e7\u00e3o, quase um em cada seis em um \u00fanico ano.\u00a0A chegada do<span>\u00a0<\/span><strong>G\u00e1s do Povo<\/strong>, programa do governo federal, deve elevar a demanda e exigir mais capital: o setor estima injetar entre 5 e 10 milh\u00f5es de novos botij\u00f5es, com investimento pr\u00f3ximo a R$ 2,5 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>A regra atual, na leitura do Sindig\u00e1s, funciona como uma garantia: a distribuidora investe no vasilhame porque a exclusividade de marca assegura que ele sempre volta \u00e0s suas m\u00e3os. Tira-se a exclusividade, quebra-se o incentivo. \u201cSe eu tiver um botij\u00e3o que tem l\u00e1 meu nome, mas ele n\u00e3o volta para mim, por que eu vou investir na manuten\u00e7\u00e3o dele?\u201d, questiona o dirigente.<\/p>\n<p>O resultado, argumenta, seria o abandono do parque. Ele resume o racioc\u00ednio com uma imagem. \u201c\u00c9 a teoria do banheiro p\u00fablico. Eu uso, sujo o ch\u00e3o, n\u00e3o vou usar de novo, ent\u00e3o por que vou limpar?\u201d Sem um dono certo, diz, o vasilhame vira um bem de ningu\u00e9m que caminha para o sucateamento.<\/p>\n<p><strong>\u2018N\u00e3o \u00e9 bem assim\u2019, dizem os pequenos<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 as revendas partem de outro princ\u00edpio. A Abrag\u00e1s sustenta que o botij\u00e3o n\u00e3o \u00e9 da distribuidora, e sim do consumidor, que j\u00e1 pagou por ele e pela requalifica\u00e7\u00e3o embutida no pre\u00e7o de cada troca.<\/p>\n<p>O argumento dos pequenos tamb\u00e9m defende que o reenvase n\u00e3o libera o enchimento do botij\u00e3o em qualquer esquina, e, sim, em revendas de grande porte, cerca de 15% das 60 mil autorizadas no pa\u00eds.<\/p>\n<p>E rebate a tese de que a abertura poderia alimentar o crime organizado, temor do<span>\u00a0<\/span><strong>Minist\u00e9rio de Minas e Energia<\/strong>. Para a Abrag\u00e1s, o g\u00e1s desviado para fac\u00e7\u00f5es j\u00e1 circula hoje, sob o radar das grandes empresas.<\/p>\n<p>O reenvase acabou sendo, na verdade, um novo cap\u00edtulo de uma disputa mais antiga, a do enchimento fracionado.\u00a0S\u00e3o coisas distintas: o reenvase permite encher por completo um botij\u00e3o de marca alheia, enquanto o fracionamento deixaria o consumidor comprar o g\u00e1s por quilo e completar um vasilhame j\u00e1 em uso, como quem abastece um carro.<\/p>\n<p>Essa segunda hip\u00f3tese foi vetada por uma lei federal deste ano, que passou a exigir o botij\u00e3o cheio e lacrado. As distribuidoras comemoraram a decis\u00e3o, mas a ANP manteve uma proposta para criar a figura do envasador avan\u00e7ado, agente autorizado a operar bases de menor porte e mais perto do consumidor, e \u00e9 nela que o setor concentra agora o foco. A ideia de reenvase, portanto, segue viva.<\/p>\n<p><strong>Jogo parado<\/strong><\/p>\n<p>Em 12 de junho, a diretoria da ANP<span>\u00a0<\/span><a href=\"https:\/\/www.gov.br\/anp\/pt-br\/canais_atendimento\/imprensa\/noticias-comunicados\/anp-toma-medidas-para-priorizar-acoes-de-respostas-a-impactos-do-contexto-internacional-no-mercado-brasileiro-de-abastecimento\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">suspendeu por unanimidade<\/a><span>\u00a0<\/span>quatro itens da agenda regulat\u00f3ria, entre eles o do g\u00e1s de cozinha, alegando a necessidade de redirecionar equipes para a fiscaliza\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis em meio \u00e0 disparada do pre\u00e7o do petr\u00f3leo com a crise no Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>Procurada pelo<span>\u00a0<\/span><strong>InvestNews<\/strong>, a ANP refor\u00e7ou que a revis\u00e3o do marco do GLP foi suspensa e que n\u00e3o h\u00e1 previs\u00e3o de retomada. Quando ela ocorrer, diz a ag\u00eancia, o tema ser\u00e1 reavaliado \u00e0 \u201cluz do mercado da ocasi\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O que vir\u00e1 quando o debate voltar \u00e9 uma inc\u00f3gnita. Ao retirar o tema de pauta, o diretor-relator da ANP, Daniel Maia, sinalizou que uma eventual abertura n\u00e3o se daria de uma vez, e sim por meio de um<span>\u00a0<\/span><em>sandbox<\/em><span>\u00a0<\/span>regulat\u00f3rio \u2013 um ambiente de testes em que candidatos operariam o novo modelo sob supervis\u00e3o e escala reduzida antes de qualquer libera\u00e7\u00e3o ampla.<\/p>\n<p>Enquanto isso, nada muda. A regra atual segue de p\u00e9, o reenvase continua proibido, e o envasador avan\u00e7ado existe apenas no papel de uma minuta que nunca chegou \u00e0 consulta p\u00fablica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fonte: InvestNews \/ imagem: Sindig\u00e1s Por Rikardy Tooge Uma disputa de bilh\u00f5es pelo g\u00e1s de cozinha do brasileiro op\u00f5e as maiores distribuidoras do pa\u00eds, como\u00a0Ultragaz,\u00a0Copa Energia\u00a0(dona de\u00a0Liquig\u00e1s\u00a0e\u00a0Copagaz),\u00a0Supergasbras\u00a0e\u00a0Nacional G\u00e1s, a revendas e novos entrantes que querem quebrar o modelo em que elas operam h\u00e1 d\u00e9cadas. 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