Fonte: Cenário Energia /imagem: Sindigás
O debate sobre sustentabilidade, muitas vezes, se concentra nas grandes soluções de longo prazo. Enquanto isso, milhões de brasileiros ainda cozinham com lenha e carvão, e pagam com a própria saúde por uma energia que deveria ter sido superada. Hoje, 24 milhões de pessoas sofrem doenças respiratórias causadas pela queima desses combustíveis em ambientes fechados, o que resulta em mais de 10 mil mortes por ano.
Crianças e mulheres são as mais afetadas, expostas diariamente a uma fumaça tóxica que provoca desde irritações oculares até câncer de pulmão.
Cerca de 23% do consumo energético residencial no Brasil vem da lenha, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE). É o segundo combustível mais utilizado nas casas brasileiras, atrás apenas da eletricidade. Estudo do Sindigás, PUC-RJ e Uerj estima que as doenças provocadas pela lenha para cocção custam mais de R$ 3 bilhões aos cofres públicos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), quem vive exposto à fumaça da lenha em locais fechados tem de duas a três vezes mais chances de desenvolver doenças pulmonares crônicas.
Nesse cenário, ainda que derivado de combustíveis fósseis, o GLP cumpre um papel central em uma transição energética. O gás de botijão é 98,6% menos poluente que a lenha ou carvão no ambiente doméstico e emite 40 vezes menos gases de efeito estufa para gerar a mesma quantidade energia. A substituição integral da lenha por GLP no uso residencial reduziria em 97,3% a pegada de carbono. Trata-se de uma solução acessível, presente em todo o país e capaz de melhorar a saúde e a dignidade de milhões de pessoas.
Ao lançar o Programa Gás do Povo, que prevê a distribuição gratuita de até 65 milhões de cargas de gás de GLP por ano, beneficiando 15,5 milhões de famílias de baixa renda, o governo federal deu os primeiros passos para acelerar o combate à pobreza energética. O impacto social tende a ser profundo e deve gerar um aumento de 7% a 8% na demanda nacional, exigindo cerca de R$ 2,5 bilhões em novos botijões para garantir a eficiência operacional do setor.
A infraestrutura necessária para apoiar o programa está disponível. São 180 bases de distribuição e mais de 59 mil revendas autorizadas pela ANP, cobrindo os 5.570 municípios brasileiros. O GLP chega a lugares até onde os Correios, saneamento, eletricidade e outros serviços básicos muitas vezes não chegam, a partir de uma eficiência logística que garante a entrega de cerca de 13 botijões por segundo, porta a porta, com tempo médio de 17 a 30 minutos entre o pedido e a entrega.
Um botijão de 13 quilos dura em média 60 dias e prepara mais de 325 refeições, segundo a PNAD 2019. Isso significa segurança alimentar sem fumaça tóxica, sem risco de queimaduras, sem afastar crianças da escola para coletar lenha e sem estimular o desmatamento ilegal.
Além disso, o setor é referência internacional em logística reversa. Com o Programa de Requalificação de Botijões, as embalagens de aço são reutilizadas por anos, submetidas a testes rigorosos de qualidade e de pressão duas vezes superior à normal de uso. Isso acontece pela primeira vez com 15 anos de uso, depois a cada dez anos. Quando chegam ao fim da vida útil, os botijões são inutilizados e reciclados em siderúrgicas. Nenhum é descartado na natureza.
A energia em lata que bate à porta dos brasileiros, em todos os municípios do país, é uma ponte imediata entre a realidade atual e uma transição energética justa. Para isso, segurança jurídica e regulatória são fundamentais. O setor de GLP está pronto para ampliar investimentos e universalizar o acesso a uma energia mais limpa e mais segura que a lenha e o carvão – uma energia que transforma vidas, pois é dentro de casa, onde a fumaça ainda sufoca crianças e mulheres, que a sustentabilidade social realmente deve começar.
Por Sergio Bandeira de Mello, presidente do Sindigás