Fonte: EIXOS / imagem: CJJ
A Petrobras informou nesta quinta (9/4) que vai devolver parte dos valores pagos por distribuidores de gás de cozinhas nas compras realizadas por meio do leilão de 31 de março, quando o combustível foi vendido, em algumas regiões, por mais que o dobro do preço. A decisão foi tomada após o presidente Lula determinar publicamente o cancelamento do leilão.
Segundo a Petrobras, contudo, o reembolso inicial será apenas dos valores cobrados acima dos preços de paridade de importação do gás liquefeito de petróleo (GLP), registrado na semana de 23 a 27 de março e publicados pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Bicombustíveis (ANP).
Os valores do PPI que serão usados no reembolso são R$ 50,6740 e R$ 51,4020, para importação por Suape (PE) e Santos (SP), respectivamente e considerando o volume de 13 kg, usado nos botijões domésticos.
O preço de tabela da companhia é R$ 34,73 na média nacional, enquanto os valores praticados nos leilões variaram de R$ 56,88 a R$ 72,77.
Isto é, os preços de importação (PPI) são 47% maiores que os cobrados pela Petrobras nas vendas normais de GLP, fora dos leilões. E a venda controversa das 70 mil toneladas nas concorrências foram fechadas com um ágio próximo de 110% em relação ao preço de tabela em alguns casos; e entre 12% e 43% acima do PPI.
A companhia garantiu que vai entregar a totalidade dos volumes contratados no leilão. As cargas já estavam sendo retiradas desde o dia seguinte à realização do leilão, como mostrou a eixos.
A linha do tempo da crise do gás de cozinha da Petrobras
- 24 de março. Petrobras programou leilões de 70 mil toneladas de GLP, 12% da demanda prevista para abril, com lances iniciais de até R$ 12,35 por 13 kg de GLP. O gás de cozinha sairia ao menos 35% mais caro nesses casos. A imprensa noticia o leilão.
- 31 de março. Após adiar o leilão, a Petrobras comercializa as 70 mil toneladas de GLP em leilões com ágios de até 100% sobre o preço de tabela. Por exemplo, o preço em Duque de Caxias (RJ) saltou de R$ 33,37 para R$ 72,77 (botijão de 13 kg). A estatal justificou a venda alegando o aumento da demanda industrial.
- 1º de abril. A Abragás afirma que muitos revendedores podem abandonar o programa Gás do Povo, que fornece botijões gratuitos para famílias de baixa renda. Setor cobra o reajuste da tabela do programa social…
- … Às 20h59. O Ministério de Minas e Energia (MME) assina o ofício despachado no dia seguinte ao Ministério da Fazenda e à Senacon para que adotem medidas contra práticas abusivas de preços no mercado de GLP.
- 2 de abril, às 07h55. A ANP abre oficialmente o processo de fiscalização em que determina o envio de informações oficiais da Petrobras sobre os valores e entregas acertadas no leilão. Decisão foi tomada na noite do dia anterior…
- … Às 8h30. O presidente Lula fala ao vivo em entrevista à Record Bahia que o leilão de gás de cozinha será cancelado, após repercussão negativa dos resultados. Distribuidoras comunicam aos varejistas que os valores serão repassados e o botijão vai ficar cerca de R$ 7 mais caro.
- 6 de abril. A Petrobras demite Claudio Romeo Schlosser, diretor executivo de Logística, Comercialização e Mercados, com efeito imediato. Schlosser era responsável pelos leilões de GLP (gás de cozinha), diesel e gasolina (estes últimos, cancelados)…
- … E o governo federal anunciou o pacote extra de R$ 10 bilhões para subsidiar combustíveis, incluindo a criação de uma subvenção de R$ 0,85/kg de GLP importado, válida por dois meses (abril e maio), com custo estimado em R$ 330 milhões.
- 8 de abril. Petrobras aprova a “neutralização” dos efeitos decorrentes do leilão de 31 de março. Se comprometeu a devolver aos distribuidores os valores cobrados acima do PPI divulgado pela ANP (referente ao período de 23 a 27 de março).
A empresa cita ainda as “manifestações de órgãos de controle e regulatórios, tais como ANP e Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon)”.
Petrobras, leilões e o uso industrial do GLP
Segundo a Petrobras, os leilões de GLP, realizados regularmente desde 2024, são uma resposta ao uso industrial do combustível. “O objetivo é atender às necessidades crescentes do segmento industrial e de outras demandas que não se enquadram no uso residencial em botijões de 13kg (gás de cozinha)”, afirmou em nota à agência eixos, enviada em 1º de abril.
Essa modalidade de venda é regular, prevista em contratos. Mas cria uma tensão que precede a guerra: a estatal prática preços, por vezes, mais baratos que o de importação, o que é bom para o consumidor (residencial e industrial), mas desestimula a concorrência.
Esse GLP mais barato tira, inclusive, o mercado do gás natural. E, em uma crise, a responsabilidade pelo abastecimento recai quase integralmente sobre ela.
Em 2025, o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo (Sindigás) acionou a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) com um pedido para analisar a prática.
O caso está sob a relatoria do diretor Fernando Moura, e até o momento nenhuma decisão foi tomada. Os preços do GLP da Petrobras são os mesmos desde julho de 2024; à época, a Petrobras ofertou cerca de 2% do total de entregas em dois polos por meio de leilões.
Seis meses depois, a prática chegou a 12% das entregas em sete polos. Com ágio crescente, saindo do patamar de 10% a 16% para mais de 100% em alguns casos, como voltou a acontecer agora, em março de 2026.
O valor mínimo dos lances é estipulado acima do preço-base da companhia. Desde janeiro de 2023, quando Lula assumiu, a Petrobras reduziu os preços-base do GLP no país em cerca de 17%.
À época, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, justificou que o preço do GLP é mantido em um patamar mais baixo nos valores cobrados na tabela, porque é para o consumo doméstico, por meio dos botijões de 13 kg.
“O preço do GLP é calibrado para a cocção e uso doméstico – e o crescimento [dessa demanda] é puramente vegetativo – o que estamos vendo? (…) as distribuidoras buscam o aumento desse mercado [industrial], alegando o uso doméstico”, disse em declarações à imprensa.
“Nada mais justo do que o preço do leilão. No passado, chegamos a ter dois preços, um industrial e um doméstico. E agora essa discussão voltou por causa do aumento da demanda industrial e acho que a gente consegue enfrentar isso, não tem nada mais justo”.