Fonte: Sindigás

Tenho acompanhado com atenção crescente os debates sobre a construção de um “mapa do caminho” para encerrar o consumo de combustíveis fósseis no curto prazo.

A ambição climática é necessária. O mundo precisa reduzir emissões e o Acordo de Paris representa um marco civilizatório. Mas justamente por levarmos seus princípios a sério — desenvolvimento sustentável, crescimento econômico e transição justa — é preciso cautela diante de propostas que tratam a eliminação acelerada dos fósseis como solução homogênea e imediata.

Transição energética não é apenas zerar fósseis rapidamente.

É reduzir emissões com racionalidade econômica, proteger populações vulneráveis e reconhecer os diferentes estágios de desenvolvimento das economias.

No caso específico do GLP, estamos falando de um energético que, no Brasil, passou a ocupar posição central em uma política pública de forte dimensão social. O Programa Gás do Povo simboliza com clareza que ainda estamos em fase de expansão da demanda para substituir energéticos rudimentares e inseguros. Combater a pobreza energética também é parte da agenda climática.

Do ponto de vista técnico, quando analisamos as emissões diretas de CO₂ por unidade de energia, o GLP apresenta desempenho bastante próximo ao gás natural em termos de intensidade de carbono na combustão, além de posicionamento confortável frente a outros combustíveis fósseis líquidos.

Quando ampliamos a análise para o ciclo completo — incluindo emissões fugitivas de metano na cadeia do gás natural — as diferenças passam a depender fortemente da eficiência operacional e do controle de perdas.

Essas comparações não relativizam a necessidade de reduzir emissões. Elas reforçam que decisões estruturais precisam ser baseadas em análise técnica consistente, e não em generalizações.

O fator econômico: custo e acesso

Para pequenas demandas térmicas, especialmente na cocção doméstica, o custo por unidade energética é determinante.

O botijão P13 contém cerca de 598 MJ. Com preços médios entre R$ 95 e R$ 110, o custo situa-se entre R$ 0,16 e R$ 0,18 por MJ bruto.

A eletricidade residencial, com tarifas médias entre R$ 0,75 e R$ 0,95 por kWh, equivale aproximadamente a R$ 0,21 a R$ 0,26 por MJ.

Antes mesmo de considerar investimento em equipamentos, adequação elétrica ou confiabilidade da rede, o GLP frequentemente apresenta custo energético inferior para a cocção.

Em um país com elevada sensibilidade de renda, essa diferença impacta diretamente o orçamento familiar e a segurança energética das famílias.

Brasil ainda não é uma economia de excesso energético

O Brasil possui consumo per capita de energia substancialmente inferior ao de economias desenvolvidas.

Enquanto países maduros consolidaram alto estoque de capital energético e níveis elevados de consumo per capita ao longo de décadas, o Brasil ainda amplia acesso, infraestrutura e qualidade dos serviços energéticos.

Falar em contenção acelerada de energéticos em um país que ainda não atingiu patamares de consumo comparáveis aos desenvolvidos exige prudência analítica.

Nossa agenda é de eficiência, inclusão e qualidade da expansão — não de retração prematura.

O papel social do GLP

O GLP é amplamente utilizado na cocção doméstica e substitui combustíveis com impactos ambientais e sanitários mais severos, como biomassa sólida e querosene.

Uma eliminação apressurada ou sobretaxação indiscriminada pode gerar efeitos regressivos:

• aumento da pobreza energética;

• migração para fontes menos eficientes e mais poluentes;

• pressão adicional sobre famílias de baixa renda.

Uma transição verdadeiramente justa precisa ser ambientalmente responsável e socialmente viável.

Eficiência e inovação: todo carbono conta

Defender racionalidade na transição não significa imobilismo.

O setor de GLP no Brasil possui espaço relevante para ganhos adicionais de eficiência:

• redução de perdas logísticas;

• otimização da distribuição;

• modernização operacional;

• melhoria contínua da intensidade de carbono da cadeia.

Além disso, rotas tecnológicas para produção em escala de BioGLP e Renewable DME vêm sendo desenvolvidas internacionalmente — e também no Brasil. Ainda não são economicamente competitivas em larga escala, mas pesquisas e investimentos em curso podem, gradualmente, ampliar sua participação, contribuindo para trajetórias de neutralização.

A evolução tecnológica faz parte da transição e deve integrar qualquer desenho estratégico consistente.

Conclusão

O debate climático exige ambição, mas também rigor técnico e sensibilidade social.

Fósseis não podem ser retirados de forma apressurada em economias que ainda constroem sua base energética. O desafio é reduzir intensidade de carbono, aumentar eficiência e proteger o desenvolvimento.

O GLP deve ser analisado nesse contexto: com dados, comparações objetivas e responsabilidade econômica.

Uma transição bem desenhada não é movida por simplificações.

É construída com realismo, diferenciação e compromisso com o desenvolvimento sustentável.

É um enorme erro calibrar uma transição sob a premissa de que o Brasil esteja parado. O país avança — e precisa continuar avançando com inteligência estratégica.

Sergio Bandeira de Mello

Presidente do Sindigás


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