Fonte: Sindigás
O mercado brasileiro de combustíveis vive um ciclo de expansão apontado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE). O relatório divulgado em fevereiro de 2026 projeta um aumento não visto há anos de 3,5 bilhões de litros na demanda nacional por combustíveis líquidos e Gás Liquefeito de Petróleo (GLP) neste ano, com acréscimo de 3,1 bilhões previstos em 2027. O setor encerrou 2025 com 7,7 milhões de toneladas comercializadas. A consolidação do programa Gás do Povo, por meio da Lei nº 15.348/2026, conecta esse crescimento a um desafio social que o país ainda não resolveu.
O Balanço Energético Nacional (BEN 2025) mostra que a lenha ainda responde por 23% da matriz energética residencial do país. Estudo desenvolvido pelo Sindigás, em parceria com a PUC-RJ e a Uerj, estima que as doenças respiratórias ligadas ao uso da lenha expõem cerca de 24 milhões de pessoas à fumaça em ambientes fechados e causa mais de 10 mil mortes prematuras por ano.
O mesmo estudo revela que a dependência desses combustíveis tóxicos gera custo superior a R$ 3 bilhões anuais ao poder público. Há ainda efeitos menos visíveis: a coleta de lenha afasta crianças da escola e limita a inserção de mulheres no mercado de trabalho.
Substituir a lenha pelo GLP, portanto, é uma medida imediata, mais limpa, segura e viável para a população de baixa renda. Estamos diante de um cenário único que soma o crescimento do setor, a renda das famílias apresentando sinais de recuperação e a infraestrutura de distribuição alcançando 100% dos municípios brasileiros, por meio de mais de 59 mil revendas autorizadas. Sem dúvidas, um ativo relevante quando o objetivo é reduzir a pobreza energética em escala.
No que se refere às revendas, vale destacar que essa rede também está integrada ao Gás do Povo. O aplicativo do programa alcançou o topo de downloads nas lojas digitais durante a segunda fase de operação, de acordo com informações do Ministério de Minas e Energia. Desde novembro de 2025, mais de dois milhões de beneficiários realizaram recargas pela plataforma, que reúne quase 20 mil revendas credenciadas em mais de 4 mil municípios. Os números indicam que o benefício está sendo efetivamente utilizado e que a cadeia de distribuição responde com capilaridade.
No plano sanitário e ambiental, o gás de botijão reduz em 98,6% a emissão de poluentes no ambiente doméstico e diminui as emissões associadas à geração da mesma quantidade de energia obtida com a lenha. Isso significa que a mudança nas cozinhas brasileiras produz efeitos imediatos sobre saúde pública, segurança alimentar e preservação ambiental.
Para que esse avanço se sustente, a estabilidade regulatória é indispensável. O programa pode alcançar mais de 50 milhões de pessoas (ou mais de 15 milhões de famílias) e movimentar aproximadamente 65 milhões de recargas por ano. Para atender essa escala, o setor privado estima investir R$ 2,5 bilhões na ampliação do parque de botijões, novos cilindros e no reforço logístico. Regras claras sobre envase, responsabilidades operacionais, controle de origem e manutenção dos recipientes não são detalhes regulatórios. São a base da segurança para o consumidor e da confiança para quem investe.
A expansão projetada para o GLP, somada à adesão robusta ao Gás do Povo, oferece mais do que crescimento de mercado. O país reúne hoje política pública em execução e uma cadeia estruturada para entregar escala. Com estabilidade e previsibilidade regulatória, é possível transformar esse cenário em redução efetiva da pobreza energética, com impacto positivo direto na saúde e na qualidade de vida de milhões de famílias.
Sergio Bandeira de Mello
Presidente do Sindigás