Fonte: Sindigás
Em matemática, algumas demonstrações conduzem a um resultado inevitável. Ao final, escreve-se apenas: CQD – Como Queríamos Demonstrar.
Os mercados de embalagens retornáveis funcionam de maneira semelhante. Quando se retiram os incentivos econômicos que justificam o investimento contínuo em ativos compartilhados, o resultado deixa de ser uma hipótese e passa a ser uma consequência previsível.
A notícia[1] recente sobre a escassez de cilindros de GLP na Bolívia ilustra esse fenômeno. As distribuidoras relatam operar com apenas uma fração de sua capacidade por falta de cilindros aptos para circulação. Ao mesmo tempo, recipientes fora de especificação são retirados de operação sem reposição no mesmo ritmo, enquanto a demanda aumenta durante o inverno. O resultado aparece de forma clara: menos embalagens disponíveis, menor capacidade de atendimento e dificuldades para o consumidor.
Convém, contudo, compreender as particularidades do modelo boliviano. No país, a YPFB é a única empresa responsável pelo envase do GLP e pelo fornecimento aos revendedores, que atuam livremente na comercialização, mas têm um único fornecedor. Também existe apenas uma marca de botijão em circulação e o preço do produto é controlado pelo Estado.
Nesse modelo, cabe igualmente à YPFB a responsabilidade pela reposição do parque de botijões. Entretanto, como a remuneração da atividade é insuficiente para sustentar os investimentos necessários, essa reposição ocorre de forma esporádica. O resultado é um parque de recipientes progressivamente envelhecido, incapaz de acompanhar o crescimento da demanda.
É importante observar que esse quadro não decorre, necessariamente, da decisão de uma empresa A ou B de deixar de investir. O problema é mais profundo. Quando desaparecem os incentivos econômicos e não há remuneração suficiente para financiar a renovação dos ativos, a reposição do parque de cilindros deixa de fazer sentido econômico, ainda que exista um responsável formal por essa obrigação.
Evidentemente, trata-se também de uma questão de fiscalização. Cabe ao Estado exigir que a YPFB cumpra sua responsabilidade de repor os recipientes condenados e mantenha o parque em condições adequadas para garantir o abastecimento. No entanto, fiscalização, por si só, não cria recursos nem incentivos para investimentos contínuos quando a remuneração da atividade é marginal.
As imagens que ilustram a notícia ajudam a compreender esse ponto. O estado visivelmente desgastado dos botijões evidencia um ambiente em que há pouco incentivo econômico para renovar o parque de recipientes. Quando o retorno financeiro do investimento é insuficiente, a tendência natural é que a reposição seja postergada, comprometendo gradualmente a disponibilidade de embalagens.
Essa lógica não é exclusiva da Bolívia. Em qualquer mercado de embalagens retornáveis, a sustentabilidade do sistema depende de que existam responsabilidades claramente definidas e condições econômicas que permitam recuperar os investimentos realizados na manutenção, requalificação, substituição dos recipientes condenados e expansão do parque quando a demanda cresce.
Quando esses incentivos desaparecem, o resultado tende a ser sempre o mesmo: o estoque envelhece, a reposição diminui e, inevitavelmente, surgem dificuldades de abastecimento.
No fim, quem paga a conta é o consumidor, que enfrenta menor disponibilidade do produto justamente quando mais precisa dele.
Às vezes, a economia é tão objetiva quanto a matemática. Retire os incentivos, inviabilize economicamente a reposição dos ativos e o resultado tende a ser sempre o mesmo.
CQD. Como queríamos demonstrar.
Sergio Bandeira de Mello
Presidente do Sindigás