Fonte: Sindigás
As mudanças climáticas deixaram de representar apenas um desafio ambiental para se tornarem uma questão estratégica para a infraestrutura, a economia, governos e a segurança das nações. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) informou que 2025 foi o segundo ano mais quente já registrado, consolidando o período de 2015 a 2025 como os 11 anos mais quentes da história, com temperatura média global de aproximadamente 1,43°C acima dos níveis pré-industriais. Além de confirmar esse cenário de aquecimento persistente, a OMM alertou que os impactos das mudanças climáticas já comprometem economias, infraestruturas críticas e meios de subsistência em diferentes regiões do planeta, reforçando a urgência de ampliar investimentos em adaptação e resiliência.
Esse cenário amplia o debate sobre o futuro da energia. A transição para uma economia de baixo carbono continua sendo uma prioridade, mas já não basta. Um sistema energético preparado para o futuro também precisa ser capaz de resistir, adaptar-se e responder rapidamente quando eventos climáticos extremos comprometem redes de infraestrutura, cadeias logísticas e serviços essenciais. Em outras palavras, a adaptação climática passa necessariamente pela construção de sistemas energéticos mais resilientes.
A Agência Internacional de Energia (IEA) define segurança energética como a disponibilidade contínua de serviços energéticos em quantidade suficiente e a preços acessíveis. Hoje, esse conceito está cada vez mais associado à resiliência: a capacidade de manter o abastecimento mesmo diante de situações adversas. Não basta produzir energia, é preciso garantir que ela continue disponível justamente quando a sociedade mais precisa dela.
Para o Brasil, essa discussão é particularmente relevante. Um país de dimensões continentais, com diferentes realidades climáticas e grandes desafios logísticos, depende de uma infraestrutura energética capaz de sustentar o funcionamento de hospitais, escolas, indústrias, propriedades rurais, estabelecimentos comerciais e milhões de residências, mesmo diante de cenários críticos. Construir essa capacidade passa, necessariamente, por uma matriz energética diversificada, na qual diferentes fontes se complementem para reduzir vulnerabilidades e ampliar a confiabilidade do abastecimento.
É nesse contexto que o GLP assume um papel estratégico indo além de ser o gás utilizado diariamente em 91% dos lares brasileiros, presente em 100% dos municípios do país. O GLP é uma fonte energética apoiada em uma infraestrutura logística altamente capilarizada e eficiente, que é referência internacional e consegue atender os 5.570 municípios brasileiros, por meio de aproximadamente 170 bases de distribuição localizadas em 24 estados e no Distrito Federal. Essa rede alcança desde grandes centros urbanos até comunidades remotas.
Essa capilaridade é resultado de um modelo logístico descentralizado, que proporciona flexibilidade operacional e rapidez na distribuição. Em média, o abastecimento domiciliar ocorre em apenas 17 minutos após o pedido do consumidor e, a cada segundo, cerca de 13 botijões de 13 quilos são entregues em diferentes regiões do país. Esses números demonstram não apenas a dimensão da cadeia de distribuição, mas sua capacidade de manter o abastecimento de forma contínua e eficiente.
Outro atributo importante é que, diferentemente de fontes que dependem exclusivamente de redes fixas de transmissão ou de gasodutos, o GLP pode ser armazenado próximo ao local de consumo e transportado por rodovias, embarcações e outros meios, ampliando a autonomia de residências, hospitais, condomínios, indústrias, estabelecimentos comerciais e propriedades rurais. Essa característica reduz a vulnerabilidade da infraestrutura energética e fortalece a continuidade das atividades essenciais em momentos de maior pressão sobre os sistemas de abastecimento.
A construção de sistemas energéticos resilientes também depende da complementaridade entre diferentes fontes. Nenhum energético, isoladamente, será capaz de responder aos desafios impostos pelas mudanças climáticas. A combinação de soluções com características distintas amplia a segurança do abastecimento e reduz riscos operacionais. É aí que a versatilidade do GLP atua como importante complemento a outras fontes de energia, contribuindo para sistemas mais confiáveis e preparados para responder às demandas de um ambiente cada vez mais desafiador.
Além disso, a adaptação climática costuma ser associada a obras de drenagem, contenção de encostas ou reconstrução de áreas atingidas por desastres. Todas essas iniciativas são fundamentais, mas a preparação e capacidade de resposta de um país para enfrentar eventos climáticos extremos também depende da solidez de sua infraestrutura energética. Sem um fornecimento confiável, hospitais reduzem sua capacidade operacional, cadeias produtivas sofrem interrupções, serviços públicos são afetados e a recuperação das comunidades torna-se mais lenta.
Desta forma, a agenda energética brasileira precisa incorporar a resiliência como um de seus pilares. Investir em sistemas capazes de garantir a continuidade do abastecimento diante de eventos climáticos extremos significa fortalecer a infraestrutura de energia, aumentar a competitividade da economia e a capacidade do país de enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas, reduzindo vulnerabilidades em um cenário de crescente instabilidade. Mais do que uma resposta às emergências, a resiliência energética deve ser entendida como uma estratégia permanente de desenvolvimento.
Sergio Bandeira de Mello
Presidente do Sindigás