Fonte: Sindigás
Ter alimento em casa não significa, necessariamente, ter condições de colocá-lo à mesa. Entre o acesso à comida e a refeição pronta, existe uma etapa essencial que muitas vezes fica fora do debate sobre segurança alimentar: a energia necessária para cozinhar.
No Brasil, onde milhões de famílias ainda enfrentam dificuldades para garantir uma alimentação adequada, essa relação entre alimentação, renda e energia merece atenção. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE, apontam que 24,2% dos domicílios brasileiros conviviam com algum grau de insegurança alimentar em 2024. O indicador revela a dimensão de um desafio que vai além da disponibilidade de alimentos e envolve também as condições para seu preparo.
O gás liquefeito de petróleo (GLP), popularmente conhecido como gás de cozinha, está presente em cerca de 91% dos lares brasileiros e conta com uma rede de distribuição que alcança todos os municípios do país. Essa capilaridade é uma conquista importante, construída ao longo de décadas de investimentos e desenvolvimento de uma estrutura logística capaz de atender às mais diferentes realidades regionais.
Mas existe uma diferença fundamental entre ter o produto disponível e conseguir comprá-lo.
Para famílias em situação de vulnerabilidade, o custo da energia pode representar uma barreira adicional ao preparo das refeições. Quando o orçamento não comporta a compra do botijão, a substituição do GLP por lenha, carvão ou outras alternativas pode deixar de ser uma escolha e passar a ser uma necessidade. Nesses casos, a pobreza energética se soma às dificuldades de acesso à alimentação, ampliando a vulnerabilidade social e, muitas vezes, a exposição a riscos à saúde.
A população reconhece essa conexão. Pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva para o Sindigás mostra que 90% dos brasileiros entrevistados consideram que o gás de cozinha contribui para uma alimentação adequada, enquanto 88% reconhecem sua importância para a segurança alimentar do país.
Esses resultados evidenciam que o GLP não é percebido apenas como um combustível de uso doméstico, mas como um recurso diretamente associado à qualidade de vida e ao bem-estar das famílias.
É preciso reconhecer, naturalmente, que o uso de diferentes combustíveis para cozinhar também envolve hábitos culturais e características regionais. Estudo do Departamento de Química da PUC-Rio identificou que, no Nordeste, 13,1% das famílias de baixa renda utilizam lenha ou carvão como principal combustível para cozinhar, enquanto 18,5% recorrem a essas fontes de forma complementar. O uso desses combustíveis não está restrito às famílias de menor renda, o que reforça a necessidade de compreender as diferentes motivações por trás dessas escolhas.
O problema se torna especialmente preocupante quando o uso de alternativas mais poluentes decorre da impossibilidade financeira de acesso a uma fonte de energia mais limpa e segura para o preparo dos alimentos.
É nesse contexto que políticas públicas voltadas à redução da pobreza energética ganham relevância. O programa Gás do Povo representa um avanço ao enfrentar uma das principais barreiras de acesso ao GLP: a capacidade de compra das famílias de menor renda. Ao utilizar a estrutura de distribuição e revenda já existente no país, a iniciativa conecta a política social a uma rede consolidada, capaz de fazer o combustível chegar aos consumidores.
O desafio, portanto, não está apenas em garantir a presença física do produto, mas em criar condições para que as famílias possam utilizá-lo de forma regular, segura e economicamente acessível.
A segurança alimentar exige uma visão abrangente das condições necessárias para uma alimentação adequada. O acesso aos alimentos é indispensável, mas não pode ser dissociado dos meios para prepará-los.
Combater a fome também significa assegurar que as famílias tenham condições de cozinhar com segurança e dignidade. Incorporar o acesso à energia às políticas de segurança alimentar é reconhecer que o caminho até uma refeição adequada também passa pela cozinha.
Sergio Bandeira de Mello
Presidente do Sindigás
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